quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A sanha contra as árvores em Sintra



Vítimas dos elementos ou da mais iníqua moto-serra, as árvores de Sintra, discretamente alvo de podas e abates, têm de ser seriamente olhadas como património natural e como tal protegidas. Parte do cenário natural, frondosas e vetustas, há muito marcam as estações e os dias, floridas na Primavera, despidas no Inverno, acompanhando o tempo e o pathos de quem por elas passa, muitas vezes sem olhar. À sua sombra brincam crianças, descansam idosos, nidificam aves, serpenteiam insectos. Com elas, melhora o clima, aumenta a qualidade do ar, esbate-se o ruído.

As árvores reduzem a temperatura e aumentam a taxa de humidade.  Contribuem para a eficiência energética e ajudam a renovar o ar. Uma faia de 25m pode fornecer oxigénio para 10 pessoas. A folhagem reduz os aerossóis e poeiras. Sabiam que uma banda arborizada de 100m permite um aumento de 50% da humidade? E que uma árvore de 10m de altura transpira 130 litros de água por dia?

As árvores valorizam as propriedades e melhoram a harmonia dos espaços, solitárias ou em alameda, no esmerado jardim ou soalheiro quintal, marcam escalas, definem territórios e horizontes, protegem do sol e do frio,  são uma barreira visual e cobiça dos artistas.

Sitiadas, sofrem de expectáveis doenças e desamparados ataques, seja dióxido de enxofre ou ozono, monóxido de carbono ou azoto, peróxi-acetilnitratos ou pragas. E sofrem, quando plantadas em solos pobres em nutrientes, atacadas por herbicidas, feridas pelas infra-estruturas enterradas, contagiadas por microorganismos.

Estruturantes da imagem cénica e patrimonial, aumentam a qualidade de vida, merecendo quem lhes trate da porosidade, alimente com matéria orgânica, mate a sede ou vigie, com competente tutoragem. Frágeis e fortes, endémicas ou exóticas, são o bálsamo e a fragrância, a sombra e o refúgio, silencioso, tão silencioso que sem apelo se abatem vertendo lágrimas de seiva, culpadas de estar e perturbar, perturbar invasivos veículos, trazer improváveis alergias ou irritantemente espalhar as folhas.

Aqui e ali enfrentam o esquadrão da morte, e aos poucos despedem-se, substituídas por gélido granito, lápide fria sem direito a um epitáfio.

Breve chegará a Primavera, e com ela o inebriante odor da natureza. Replantar é preciso, espalhar o verde também. Se Sintra é a aristocrática senhora, as árvores são seu enfeitiçado perfume.
                Mais um plátano cortado, desta vez no Mucifal. A sanha continua...
                                                              Foto:Pedro Macieira

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