sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Razões para a crise do movimento associativo


Uma das razões pelas quais muitas associações se constituem e vêm a luz do dia, é o particular entusiasmo posto numa ideia, num projecto, numa causa, para tanto se conjugando de forma virtuosa pessoas, meios e conhecimento, normalmente de forma generosa e sem intuito lucrativo. Passada essa fase, e com a realidade instituída e rotinas instaladas, verifica-se porém que o entusiasmo diminui, a disponibilidade também, e certas inércias desmobilizadoras se apoderam dos projectos e coarctam dinâmicas necessárias para continuar. Acontece nas associações culturais, de lazer, nas  organizações não governamentais e é caso de estudo no âmbito da sociologia das organizações.
Alguns factores podem contribuir para isso, entre eles a centralização das decisões, a burocratização de procedimentos, a redução das formas de comunicação horizontal, a rotina na renovação dos dirigentes e projectos, alargando-os para lá do grupo inicial e fundador.
Com a perda desses factores, muitas vezes deslaça-se o sentimento de pertença, formam-se grupos internos, mais ou menos próximos dos decisores e das decisões, em que uns se aproximam dum sentimento de propriedade, e outros se consideram meros contribuintes, e sem sentir o  reconhecimento do grupo, sobretudo se se desvinculam do grupo decisor e entendem ser o seu contributo marginal e sem receptividade, deixando aos poucos de interagir e de fomentar redes de contactos com os colaboradores e os destinatários das acções, ao invés do que provavelmente faziam, e de forma entusiasta, no início do processo. Nessa fase,  criam-se capas protectoras e reduz-se a demonstração de empenho, por vezes acabando por se  partir para outros projectos ou para os que não impliquem partilha e espírito grupal. Assim se espalha o corporativismo dos que dirigem e subsistem, no meio do núcleo duro, e se esbate o espírito de missão, o que leva a organização para uma mera lógica de subsistência e protecção face ao exterior, procurando sobreviver sem perda do reconhecimento entretanto alcançado.
O abandono do risco, a reavaliação do trabalho e tarefas dos colaboradores, não introduzindo ou comunicando inovação e renovação de objectivos, são causa de anomia e fragilidade de muitas associações, e quem me ler, reconhecerá que isso sucede ou já sucedeu em muitas organizações numa ou noutra fase da sua vida, algumas tendo até acabado talvez por razões próximas das aqui elencadas.
Para ultrapassar isso, há que reiventar rotinas, renovar tarefas e sua distribuição, identificar as virtudes e potencialidades dos colaboradores concretos e não dos desejáveis, re-centrando o discurso e adaptando as práticas, recolhendo aos afectos e daí partir para as emoções donde podem de novo surgir ideias e projectos. Tudo depende da atracção que passada a fase inicial, as emoções e os argumentos colham junto dos adeptos e colaboradores, para assim se poder prosseguir, renovados, após tensões purificadoras ou de ruptura. Essa a pulsão com que se debatem muitas organizações actuais, sobretudo quando além da motivação, o tempo e os recursos materiais afectam a vida privada dos seus membros e as dificuldades se lhes afiguram maiores que as compensações. Mas é isso que distingue os vencedores dos vencidos, e para tanto há que aceitar críticas, fazer mea culpa e renovar a emoção de prosseguir uma missão, que sendo por e para todos, ou para um específico nicho de destinatários, nunca terá sucesso se não começar dentro de Nós, remexendo com as nossas emoções, como quando ocorreu no momento fundador.

Fernando Morais Gomes

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