sábado, 19 de janeiro de 2013

Homenagem a João Mello Alvim


Foi um painel multifacetado e intergeracional aquele que no dia 15 de Novembro de 2012, data em que se cumpriram 25 anos da fundação do Chão de Oliva, grupo de teatro de referência em Sintra, homenageou o seu fundador e alma propulsora, João de Mello Alvim. Passando pelo teatro CIDRA , nascido na Escola Secundária de Santa Maria, em 1981, com "Amor de Curtição", a direcção da Sociedade União Sintrense, onde igualmente apresentou espectáculos ("Um pedido de casamento", de Tchekov, ou "O Último Acto" de Camilo, em 1985),ou  a criação do Chão de Oliva em 1987, que incluiu o Teatro da Meia Lua, Alvim é hoje ainda figura incontornável na vida cultural de Sintra.
Quem viveu em Sintra nos anos 80, recordará o pouco teatro que então se fazia, e a pedrada no charco que foram peças como “Comunidade” de Luís Pacheco no Casino, ou as levadas à cena no antigo Carlos Manuel depois de Fevereiro de 1991 ( “Maçãs do Mar” “Grande trabalho é viver” “O Falatório de Ruzante” “A Fé nos Amores” “A Birra do Morto”,"O Mistério da Estrada de Sintra", "O Auto da Índia", "Não se paga! Não se paga!" e muitas outras, onde em várias pontificou a malograda Maria João Fontaínhas, ou actores como Alfredo Brissos. 
Dotada de uma casa em permanência, inaugurada em Outubro de 1999, (foto acima)na Casa de Teatro de Sintra, a marca Chão de Oliva estendeu-se a outras vertentes, como o teatro de marionetas ou os alojamentos de companhias visitantes, sempre em ligação com outros actores e grupos de teatro que entretanto foram surgindo, como o Utopia Teatro, os Tapafuros, a Casa das Cenas ou o teatromosca, continuando João Alvim a ser presença de referência, fosse na cena teatral, fosse colaborando com a imprensa local, nomeadamente no Jornal de Sintra. Sabe-se a sua aversão a homenagens, contudo, mal andaria a comunidade através dos seus representantes se deixasse passar em claro o trabalho incansável e nem sempre recompensado de alguém que trouxe uma lufada de ar fresco a uma Sintra até então palco apenas do teatro das sociedades, do qual herdou o entusiasmo, enriquecendo-o com técnica e dramaturgia, e obrigando os cultores do mainstream de Lisboa a fazer o percurso inverso, para em Sintra assistir a bom teatro.
Durante a sessão usaram da palavra a actriz Carla Dias, que resumiu de forma literária o percurso de Alvim desde que um dia saiu do Porto e se lançou no ensino e no jornalismo, passando por uma simbólica participação no 25 de Abril, quando, militar, teve a guarda do director da PIDE, Silva Pais, aprisionado; Maria Almira Medina, que partilhou cumplicidades de um percurso estimulante e nem sempre consensual, e o presidente da Câmara Municipal, Fernando Seara, que, entre alguma picardia pela simpatia "azul" do homenageado, futebolisticamente falando, exaltou as suas qualidades humanas.
Presentes amigos, colegas de muitos anos e representantes das forças políticas de vários quadrantes, a demonstrar o quanto a obra de João Mello Alvim ultrapassou resistências e a importância do seu testemunho de mais de 30 anos. 
Entrevista no Sintra Canal em
http://www.sintracanal.tv/html/?v=SdfkCTogAl



A Alagamares pediu entretanto a diversas personalidades um depoimento sobre a pessoa e obra de João Melo Alvim:
 
A atribuição da Medalha de Mérito- Grau Ouro-como homenagem ao trabalho e à obra de João Mello Alvim é, indissociavelmente, uma homenagem ao trabalho de criação, programação, acolhimento e formação desenvolvido, ao longo dos últimos vinte e cinco anos pelo Chão de Oliva, tanto ao nível nacional como internacional.
É o reconhecimento da importância da determinação, da tenacidade e do talento deste homem para o engrandecimento da cultura no Concelho de Sintra. É a confirmação da necessidade constante da criação artística como um dos pilares da sociedade atual.
Como Vereadora do Pelouro da Cultura quero deixar, aqui, o meu agradecimento pelo trabalho desenvolvido e a certeza do muito que ainda está por fazer.
Paula Simões
Vereadora da Cultura

Apesar de ao longo dos últimos dez anos, o Teatro que se faz em SINTRA, por mais de uma dezena de grupos de teatro, já ser uma referência nacional, em parte deve-se ao trabalho desenvolvido pelo CHÃO DE OLIVA / Cª de Teatro de Sintra, dirigida pelo homenageado. E só por isso a homenagem é justa e vem no melhor momento.
 Dentro desse trabalho vem a persistência e partilha do mestre João, quer nos seus trabalhos de encenação/direção, quer no ensino, quer na formação de atores/atrizes, quer na criação de novos públicos, quer no acolhimento de projetos multidisciplinares entre outros, aglutinam indicadores suficientes de uma vida ligada ao teatro e à cultura em Sintra.
Particularmente, nem sempre estivemos de acordo, o trato nunca foi informal, as experiências entre as nossas associações nunca foram muito profícuas, talvez porque as raízes eram diferentes e nenhum dos dois queria abdicar da sua. Com o tempo criou-se o respeito mútuo. E nessa base de respeito, o tempo veio dar razão a ambos: há espaço para todas as linguagens teatrais que existem e que poderão ser criadas, mas nunca nos podemos esquecer do básico, do essencial, das condições dos colaboradores e associados, do apoio das instituições e empresas locais e de quem anda nestas andanças há muito tempo e paga para manter a sua dignidade como homem e criativo.
Os meus parabéns ao mestre João Melo Alvim.
Os meus parabéns à Camara Municipal de Sintra pela lembrança de homenagear um homem do teatro de SINTRA e Portugal.
Obrigado à ALAGAMARES por proporcionar esta evocação e testemunho.
Jozé Sabugo
diretor artístico do Grupo Acusa Teatro (CASA DAS CENAS - Educação pela Arte)


Nutrimos grande admiração pelo João Alvim, embora saibamos não suceder o contrário. Foi ele quem resgatou o teatro em Sintra nos idos de 70. O teatro adormecia em Sintra, entre a revista e a comédia de costumes, ambos praticados com sucesso no seio das colectividades de recreio.
Vindo do liceu de Sintra, Alvim deu um novo ânimo ao teatro sob o apoio do vereador da Cultura Lino Paulo. Primeiro, reabilitando a sala de espectáculos de uma colectividade de Sintra Velha, depois sonhando reedificar o antigo teatro Gil Vicente da Vila Velha, finalmente, sob o impulso de Edite Estrela, criando a Casa de Teatro de Sintra e a  Companhia de Teatro de Sintra. Foram igualmente importantes as suas acções de formação para novos actores, tendo criado uma nova geração de actores, que deu origem aos diversos grupos de teatro existentes actualmente em Sintra.
Com efeito, antes do Alvim, a situação teatral era uma, com ele passou a ser outra, radicalmente distinta e para melhor, por isso se pode dizer ter ele feito uma revolução em Sintra no campo do teatro.
Hoje, precisamos de um novo Alvim. Felizmente, existem várias hipóteses, desde a Susana Gaspar ao Paulo Campos dos Reis e ao Nuno Vicente.
Filomena Oliveira e Luís Martins
 
Ao ser convidado para redigir uma linhas embora curtas e poucas sobre a personalidade da figura João de Mello Alvim, hesitei nos primeiros momentos, por não me considerar a pessoa mais indicada, nem tão pouco ter privado de muito perto com o cavalheiro em causa. Contudo, tive o privilégio de numa 1ª fase partilhar experiências de ensino com este homem, ambos na qualidade de professores no então conhecido por Liceu de Sintra, actual escola secundária de S. Maria. Posteriormente voltámos a cruzarmo-nos nas lides teatrais através das Mostras de Teatro das Escolas, sendo João de Mello Alvim um dos mentores senão mesmo o criador, e eu como um dos muitos professores que na altura abraçaram este projecto contribuindo para que ele se tivesse mantido até aos dias de hoje, embora com algumas evoluções naturais e correcções ao projecto inicial.
Sem sombra de dúvida que é a este projecto e ao seu criador, que eu devo a minha continuidade no mundo das artes performativas, quer com o grupo de teatro escolar, quer fundando uma associação cultural que permitisse prolongar para lá da escola esta actividade – Associação Cultural Absurdo.
Foi ainda pela mão de João de Mello Alvim que me foram abertas as portas relativamente a uma outra associação de teatro escolar a nível Nacional ETE’S, que quanto julgo saber o agora homenageado estará igualmente na génese e fundação deste mesmo projecto, com outros companheiros que ousaram sonhar para lá das suas fronteiras reais e impulsionar um projecto de âmbito nacional, que ainda se mantêm vivo volvidos que são mais de 30 anos.
Foi-me facultada ainda a possibilidade de fazer formação através da companhia de Teatro Chão de Oliva, tendo frequentado uma formação Inicial, inserida nos vários cursos que são promovidos e da responsabilidade desta companhia, da qual João de Mello Alvim é o seu Director.
Mais não ouso avançar com receio de falhar e desta forma distorcer a verdade, posto que não é essa a minha intenção e tão pouco o objectivo desta curta crónica.
Que o homenageado me desculpe se porventura cometi alguma argolada, mas estou a trabalhar sobre o arame e à vista.
Gostaria de endereçar os votos de perseverança na continuidade, face aos tempos difíceis e quase impossíveis com os quais todas as companhias de teatro e não só estão a viver e a sentir.
Que possamos continuar a trocar um aperto de mão de tempos em tempos, sentido de que por cá ainda andamos com gosto e entusiasmo.
Um abraço
Eurico Leote

Aconteceu a tantos jovens artistas em Sintra o mesmo que a mim. Eu fui um dos muitos que passou pelas mãos do Alvim. Tinha 15 anos em 1989 já o Alvim era figura “mítica”, incontornável. Despertava um nervoso miudinho a sua presença…era frontal e exigia o mesmo. Éramos jovens não sabíamos com o que contar, mas a vida é sempre assim, imprevisível, e sempre o Teatro e as Artes acompanharam as dúvidas do Homem, e isso sabia-o bem Mestre Alvim e isso levava-o a não desistir de nós, levava-nos a reagir, semeava estilhaços e nós depois, alucinados, íamos, por ali fora, dentro e fora do palco, recolhendo, pedacinhos do mapa de orientação. Mestre Alvim, firme e íntegro nos seus valores e ideais mas aberto a toda e qualquer experimentação. Nós jovens artistas nas suas mãos, perturbados com os seus modos e procedimentos e, em assombroso simultâneo, com essa irritação constante estávamos a sermos cada vez mais engenhosos e persistentes, sem nunca nos contentarmos com o fácil ou o imediato, e nisso nos entendíamos. Uma emoção e reflexão mais profunda buscou-se sempre entre todos os que ao longo dos anos buscaram o Chão de Oliva. 8 ou 80 diziam todos. Ou se Ama ou se Odeia. Sim, não pode haver consenso quanto ao Alvim, que sentido faria isso para quem tanto se preocupou em abrir caminhos, abrir mentes, a uma exigência e aperfeiçoamento cada vez maior da criatividade que cada um de nós encerra?

Não sou dos melhores exemplos dos muitos artistas luminosos que passaram pelas mãos do Alvim apesar de muito ter testemunhado. Perto dele estava sempre caladinho e angustiado. Dos meus 15 aos 21 anos acompanhei de perto o Chão de Oliva no Antigo Cine-teatro Carlos Manuel, ajudei nas mudanças para o Antigo Casino, e nas vésperas da Casa de Teatro de Sintra abri asas para outras utopias graças ao meu Mestre Primeiro.  Depois de tantos anos, ainda hoje não consigo uma conversa com o Alvim sem gaguejar e meter as mãos pelos pés, tamanho ainda o meu assombro…

Mas tenho para com o Alvim uma “dívida”, não soberana ou sanguínea, mas de pedra-basilar, de fundação do meu ser. Marcou-me na época mais sensível, da adolescência à fundação da UtopiaTeatro, arquitetura essencial à minha maturidade. Alvim para mim é “História Mítica”.

Com os melhores cumprimentos
Vosso
Nuno Vicente
Fundador, Diretor artístico Utopiateatro
S. Pedro de Penaferrim
Se fosse hoje chamar-se-ia, talvez, Sociedade Gestora de Participações Culturais em contexto Didático-Pedagógico, na componente não lectiva de estabelecimento de alguns professores contrariados.
Como aquilo que vou tentar aqui descrever aconteceu meia dúzia de anos depois da revolução de 25 de Abril, chamou-se GAC – Grupo de Acção Cultural (escrevo com duplo “Cê” pois era assim que se escrevia nessa altura). Partiu da ideia e da vontade de vários professores e professoras que, por amor à escola, aos alunos, ao ensino, à profissão, por carolice, sem tempos no horário docente para o efeito, decidiram fundar uma associação que reunisse professores e alunos em actividades culturais extra-curriculares. Surgiram o jornal escolar “Então?!”, um grupo de cinema, outros de filatelia, de rádio, de fotografia, de dança, o AARVIS – Atelier de Artes Visuais e o CIDRA – grupo de teatro escolar e técnicas circenses.
Remonta ao início da década de 80 a vinda de João de Melo Alvim para Sintra. Escusado será dizer que era um dos professores metido nestas andanças. Conheci-o nessa altura – ele professor, eu aluna. Fazíamos parte do GAC, ele no teatro, na fotografia e no AARVIS, eu em tudo o resto.
Mantivemos uma relação à distância durante anos, quase sem palavras. Feita do entusiasmo e de uma espécie de pó mágico que se sentia no gosto por aquilo que se fazia, em grupo, em trabalho colaborativo como se diz agora, trabalho voluntário, sempre em partilha com os outros, discutindo, acordando, aprendendo a ouvir e a aceitar opiniões divergentes. João de Melo Alvim tinha fama de impor a sua vontade, ouvindo pouco o que era acentuado por parecer quase ausente, sempre na sua, por vezes, com ar severo,  zangado, num bigode que lhe tapava a boca e quase todo o queixo em contraste com o cabelo puxado para trás descobrindo-lhe a testa, casaco azul tripeiro e umas inseparáveis botas de cano e tacão alto, imagem de marca, digo eu.  Hoje parece-me que foi e é uma das pessoas que melhor soube ouvir - ouvia por dentro e sabia partilhar com todos a magia, o prazer e a emoção de espectáculos como o “Nó Mágico”, o “Amor de Curtição” ou o “Foi como é”. Convidava nomes conhecidos do teatro e do mundo do espectáculo para ensinar sapateado, canto, artes circenses, a jovens adolescentes deslumbrados com um mundo novo ali à mão e que, de outra forma, não teriam essas experiências. Foi acompanhado em toda esta actividade por nomes que quero aqui referir, também, como José Luís Amaral, Teresa Rey, Teresa Campos Coelho, Helena Silva, José Russo, mais tarde, Marilisa Crespo, Maria José Ferreira, Manuel Romano. Cada uma destas pessoas com um trabalho notável, uma disponibilidade infinita para ensinar e ajudar a crescer adolescentes que, em muitos casos, foram cativados e motivados desta forma para a escola, fortalecendo a vontade de aprender e, sobretudo, acordando a consciência de cada um para a importância da cidadania responsável, informada, culta, interventiva. Outra razão por que soube ouvir foi que nunca deixou dissipar a magia que se gerou neste grupo de pessoas nem de aceitar gente nova, ao ponto de continuar caminho dentro e fora da escola, primeiro com um grupo de teatro amador na Sociedade União Sintrense, com outras actividades de âmbito cultural como os “Passeios de Domingo”, depois na fundação do Chão de Oliva, do “Fio de Azeite” e, finalmente, da Companhia de Teatro de Sintra. Soube até ouvir o silêncio (para não dizer deserto) que existia na nossa terra em termos culturais há trinta anos atrás, contribuindo de forma indelevel para converter Sintra num espaço de referência cultural na actualidade. João de Melo Alvim ajudou ainda a formar actores, encenadores, produtores culturais. Para mim, o seu principal contributo, foi e é, ajudar a ter asas a muita gente, numa aprendizagem de vida que sendo pragmática, torna o sonho possível. Muito obrigada Alvim!
Céu Ribeiro

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