terça-feira, 15 de janeiro de 2013

As origens da Alagamares

 A Alagamares é uma associação cultural constituída em Março de 2005, estatutariamente apartidária, laica, sem fins lucrativos, e com sede no concelho de Sintra, na freguesia de S. Martinho, em área classificada de património mundial pela Unesco. Por iniciativa de um grupo de cidadãos da localidade de Galamares, foi fundada com o objectivo de promover o debate e a acção cultural nas áreas da história, do património, das artes e do ambiente em Sintra.
A Alagamares também foi juridicamente formalizada, estabeleceu um portal de cultura na Internet, registou a entrada de cerca de 330 associados e, sobretudo, criou uma dinâmica que indica que há vontades e valores para intervir e dinamizar a vertente cultural do concelho de Sintra.
O manifesto de fundação da associação cultural Alagamares, da autoria do seu fundador e actual presidente, o Dr. Fernando Morais Gomes, dado a conhecer no dia 9 de Março de 2005, foi o seguinte:
"Galamares, localidade da freguesia de São Martinho, no concelho de Sintra, é uma antiga e pitoresca localidade das faldas da Serra de Sintra, outrora terra de vistosos pomares e de veraneantes, que ali procuravam o bucolismo e a tranquilidade da serra para, em contemplação e paz, desfrutarem os 'ares puríssimos, os panoramas surpreendentes sobre a maravilhosa serra de Sintra, Monserrate, pomares e rio de Colares (preferido para a pesca desportiva)' e, assim, retemperarem forças longe da cidade.
Com os anos, a terra outrora pantanosa e testemunha duma ribeira de Colares navegável e fértil, à sombra sentinela dos seus castelos centenários, virou um pequeno microcosmo que alberga não só os veraneantes, enfim rendidos à terra como descanso do guerreiro, mas também os seus filhos labutando hoje já não na agricultura mas nos serviços e na fronteira da Grande Cidade, da qual se querem destacar, sendo essa a matriz e o desejo de todos quantos hoje ali habitam. Só que habitar, viver, socializar, impõe a construção de identidades, de pólos de referência, de novas comunhões de afectos e de valores.
Como tal, o associativismo, ligado à necessidade de explorar e desenvolver causas comuns, seja para a divulgação cultural e patrimonial do nosso vasto e inestimável espólio humano e histórico, e associado à vontade de dinamizar consciências e cobrir com o manto da divulgação anseios e necessidades relatados mas não explorados, levam um conjunto de amigos e fiéis de Galamares, a lançar, a partir daqui, as bases para um novo pólo que aglutine aqueles para quem viver não é uma mera soma de metas contabilísticas, mas antes a busca contínua por uma cidadania plena, onde saber e aprender, ver e ouvir, pensar e ponderar se congregam.
Nestes termos, um grupo de cidadãos sintrenses decidiu lançar o desafio da criação de uma associação cultural, de base regional, a qual, partindo dessa paixão comum que é o apego à terra e à mística que a envolve, promove o gosto pelo conhecimento da história, da cultura, tanto erudita como popular, pelas artes e suas manifestações, e ainda pela ciência e novas tecnologias, promovendo e almejando a informação que faz, de cada um, um cidadão mais esclarecido e, logo, mais livre e mais adulto.
Mas como tal anseio só se faz com o apoio de todos e cada um, e visando a implementação e desenvolvimento da Alagamares, associação apartidária, laica e de cariz formador e informador, fora de competição com outras associações e colectividades, com as quais deseja somente crescer e cooperar, convocamos os interessados para, em Sintra, virem enriquecer, com o seu contributo pessoal, este novo projecto associativo. Assim, caro amigo sintrense, agora e sempre, faça ouvir a sua voz, intervenha na sociedade, participe, arrisque partilhar algo com os outros: venha colaborar conosco!
Pela cultura, Empenho e Acção!"
No plano da dinamização de actividades da associação tem-se vindo a realizar colóquios e conferências temáticas, visitas culturais e técnicas, eventos artísticos, o estudo do património, do urbanismo e da arquitectura, da ciência e da tecnologia, actividades de ar livre e de educação ambiental, acções de formação e workshops, e outras actividades, em número que ultrapassa a centena.
Às fases de desenvolvimento referidas no item anterior seguiu-se a estruturação funcional da associação, para além da resultante das competências e cargos estatutários, de acordo com o conceito de núcleos de trabalho, os quais são os seguintes: Património, Urbanismo e Arquitectura; Teatro, Artes Plásticas e Performativas; História e Arqueologia; Economia, Sociedade e Cidadania; Ambiente, Natureza e Ar Livre; Ciência e Tecnologia; Fotografia e Imagem; Cinema e Música.
Pretendendo ser um parceiro e actor cultural, a associação quer sobretudo divulgar e aprender, para tanto se balizando pela discussão e abordagem permanente de assuntos novos ou em novas perspectivas. Citando Miguel de Unamuno, "a erudição é, em muitos casos, uma forma disfarçada de preguiça intelectual ou um ópio para adormecer as inquietações íntimas do espirito", não pretende constituir-se num núcleo de eruditos, mas somente num espaço artífice e artesão dos saberes, sem dirigismos, dogmas ou espírito de capela.
O vocábulo alaga-mares, que deu nome à associação

Das páginas 149 a 151 da obra "Cintra Pinturesca - Memoria Descriptiva da Villa de Cintra, Collares e seus arredores" (1838), da autoria do Visconde de Juromenha, consta uma "descripção da villa de Collares" de há 170 anos trás. Nela é feita referência a "Gallamares", supostamente vocábulo corrupto de "Alaga-Mares" por chegar antigamente a maré àquele sítio, inundando-se, na enchente, o vale por ela percorrido.
O autor faz referência à perda de navegabilidade do rio Colares, tendo-se tornado o seu leito, no estio, "vadiavel em toda a parte" (percorrível a pé?). Dever-se-á, segundo o Visconde, a duas causas concorrentes: (i) o progressivo assoreamento da foz, antigamente "limpa e funda", por onde acediam as embarcações que demandavam o porto de Colares, (ii) e as retiradas de água da ribeira para a rega dos pomares.

É ainda referido que, já no ano de 1154, no foral de Cintra, se designava este rio por "Galamar" e que os nomes de alguns sítios em redor do mesmo rio de Collares, designados Porto, Reconcavo, Terra Firme, Auguaria, etc. de alguma forma fundamentam "a conjectura tradiccional de o mar ter occupado estes campos e areaes, a que ainda chamão marinhas, que hoje se vêem aproveitados em vinhas e pinhaes".

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