sábado, 22 de dezembro de 2012

Sérgio Luís de Carvalho, cronista de passados

Sérgio Luís de Carvalho,autor de uma já vasta obra no campo do designado “romance histórico”, e que  publicou recentemente “O destino do Capitão Blanc” falou ao nosso site sobre a sua obra, onde Sintra é frequentemente presença em díspares momentos históricos. Em 2007 fez igualmente parte da organização do III Encontro de História de Sintra promovido pela Alagamares.
                   

Licenciou-se em História (1981) e é mestre em História Medieval (1988).Foi  Director Científico do Museu do Pão.

Publicou os romances “Anno Domini 1348” (Edição C. M. S., 1990; Prémio Literário Ferreira de Castro 1989; finalista do Prémio Jean Monnet de Literatura Europeia, Cognac 2004 e finalista do Prémio Amphi de literatura Europeia Lille 2005), “As Horas de Monsaraz” (Campo das Letras, 1997), “El-Rei-Pastor” (Campo das Letras, 2000), “Os Rios da Babilónia” (Campo das Letras, 2003), “Retrato de S. Jerónimo no seu Estúdio” (Campo das Letras, 2006), entre outros, sendo a sua obra mais recente “O Destino do Capitão Blanc”(Planeta,2009,

Alguns dos seus romances estão traduzidos e publicados em França e Espanha. É ainda autor de vários livros de investigação histórica e literatura juvenil.

 ALAGAMARES(A)-O Sérgio Luís Carvalho tem um traço comum na maior parte da sua obra, que é a temática histórica. Fá-lo na preocupação de exactidão narrativa ou como mero pano de fundo das tramas?

SÉRGIO LUÍS CARVALHO(SLC)-Não consigo separar uma coisa da outra. Para mim, mais que uma questão de estilo ou método, é uma questão de seriedade. Se uso uma época como pano de fundo de um romance e se assumo as suas personalidades históricas como minhas personagens (ou mesmo que as inventasse) tenho de manter o rigor factual e a exactidão narrativa. Não posso colocar D. Dinis a comer batatas ou D.Fuas Roupinho a falar em “minutos”.

E se proceder a alterações de monta no rigor e na exactidão para fins narrativos -coisa que posso fazer em nome da liberdade criativa - acho que devo revelar, em nota final, o que é verdade e o que é ficção. Parece-me que outra coisa poderia ser batota. Ou seja, se eu “falsificar” a história, tem de estar implícito nas regras do jogo narrativo que eu “falsifiquei”.

A-O período histórico em que se especializou é o da época medieval. Acha que é justo considerar do ponto de vista cultural esse tempo histórico como “a era das trevas”?

SLC-Creio sinceramente que é uma injustiça histórica. Época difícil, sim. Época pobre, decerto. Mas época das trevas é um erro. Sabem como surgiu o termo Idade Média? Quando os renascentistas se quiseram afirmar, retomando a herança clássica, forjaram o termo para designar a época que os precedeu, como se entre Grécia/Roma e o Renascimento nada houvesse digno de registo. O período entre os século V e XV estava no “Meio”. Contudo, foi pelo diligente trabalho dos monges copistas medievais que os renascentistas e humanistas tomaram conhecimento dos textos e autores clássicos.

Além disso, muito do que é atribuído à Idade Média ou é posterior, ou já vinha de trás. Exemplos: a Inquisição começou, de facto na Idade Média, mas teve o seu fulgor persecutório maior após a Contra-Reforma, no século XVI. Em inúmeros aspectos, a situação da mulher (em Portugal) pelo menos, era melhor na Idade Média em questões como violação ou património, que depois. E se alguns pares da Igreja eram misóginos (se eram), que dizer que muitos humanistas? E, já agora, sabiam que nunca nenhuma mulher foi morta por bruxaria, em Portugal? E não é verdade que a Idade Média permitia entre nós os judeus e os mouros, que só foram expulsos nos finais do século XV, isto é, já após este período?

Bom, mas acho curioso que seja a nossa época a enfatizar a Idade Média como “das trevas”, quando existiram mais guerras no século XX que em toda a História anterior, e quando as fomes são hoje desencadeadas por questões político-económicas e não por falta de meios e de alimentos, como na Idade Média. E quanto a questões de intolerância e de fanatismo… Hoje estamos muito bem, decerto.

A-Quem é o personagem ou tema da História de Portugal sobre o qual gostaria de escrever um livro?

SLC-Muitos há. Um deles, veja-se bem, é o antigo alcaide seiscentista de Sintra, André de Albuquerque Ribafria. A história do homem é, ela mesma, uma aventura incrível. E trata-se, sem nacionalismos excessivos, de um dos melhores militares portugueses de sempre.

A-Sintra está frequentemente presente na sua obra, logo a começar em “Anno Domini 1348”.O que representa para si  Sintra no plano da inspiração literária?

SLC-Não acredito na “inspiração” literária. Acredito na “inspiração” desencadeada e provocada pelo trabalho constante e diário. Não me inspiro nas brumas da serra ou nas ruínas dos palacetes. Se posso -isso sim- considerar como “inspiração” o conjunto de referências afectivas, emocionais e artísticas que me rodeiam e que me fazem, então Sintra “está lá”. Mas sempre como elemento de um todo.

A-O que pensa do movimento cultural em Sintra? Que áreas ou assuntos considera mais e menos bem tratados?

SLC-Acho que temos muita e boa gente a laborar em prol da cultura. A Alagamares não é um bom exemplo?

Creio que há um grande problema com o nosso património e com a degradação urbana nos centros históricos. Coisa comum a outras terras, aliás. Sei que são áreas sensíveis cuja solução (se há) desconheço. Mas permitam-me este desabafo.

A-Quais são em sua opinião os romances de inspiração histórica portugueses mais relevantes?

SLC-Herculano é como o dedo médio das nossas mãos: o “pai de todos”. Ainda que (talvez) datado, por vezes chato, quiçá um bocadito ultrapassado e “pesado” (tudo mentiras, claro), Herculano está para o romance histórico português como Walter Scott para o romance histórico europeu. 

Depois, houve muitos e bons autores e muitos e bons romances. Há muitos e bons. Haverá muitos e bons. A crítica primeiro, o Tempo depois (e de forma definitiva) dirão quais os mais relevantes. E não, esta resposta não é politicamente correcta. É a minha verdade.

A-Acredita na afirmação de que todos os livros são autobiográficos e no fundo se escreve sempre a mesma história?

SLC-Sendo certo, seguro e sabido que só posso falar por mim, o que penso é que um autor está sempre em cada personagem sem ser nenhuma personagem. Em cada história, em cada narrativa, em cada personagem, o autor põe as suas referências, memórias, pulsões, visão do mundo, inquietações, medos, anseios, preocupações, desejos, amores e desamores. O autor “está lá”, mas não “é lá”. A resposta sobre a suposta autobiografia em cada livro só pode ser, portanto “nim”.

Por tudo isto, compreenderão que a resposta à segunda parte da questão seja também pouco assertiva. O autor repete, sim, em cada história, as suas referências, memórias, pulsões, visão do mundo, inquietações… Bom, já sabem o resto. Enfim, é o mesmo romance, por certo. Mas não é nunca o mesmo romance.

8-Como vê o panorama literário português da actualidade?

SLC-Está bem e recomenda-se, como sempre assim foi.

9-Acha que seria útil ou justificada uma Universidade em Sintra, ou uma cátedra de estudos sintrenses?

SLC-Vai para aí uma enorme e justificada discussão sobre  o valor dos inúmeros cursos que nas nossas universidades se leccionam e sobre o valor de muitas universidades, algumas delas suspeitas de longa data. Longe de mim dar exemplos…

Uma Universidade de Estudos Sintrenses parece-me excessivo.Talvez uma Universidade de Estudos Locais e Regionais, com cursos sobre História Local, Administração Local, Ordenamento do Território, Problemática do Poder Local, Património Regional, Acção Sócio-Cultural em Contexto Local, etc…Caramba, já estou a criar aqui todo um curriculum. Aí, sim, poderia fazer sentido uma cátedra de História e Património Sintrense. Pode-se fazer bons estudos e boa divulgação da História de Sintra fora do contexto universitário, aliás. Porque não? Fala-se sempre tanto da ligação das empresas à cultura, ao conhecimento, à investigação, que me parece curioso que haja quem sorria da hipótese de um seminário de História de Sintra poder ser dado numa empresa… Assim os nossos empresários tivessem essa visão social e cultural das empresas…

10-Qual a sua opinião sobre o Acordo Ortográfico?

SLC-Talvez a minha opinião não seja maioritária nem a mais popular. E é dada como mero utilizador da língua e não como filólogo e/ou linguista, claro. A verdade é que eu sou favorável ao acordo ortográfico, tal como serei sempre favorável ao que una mais a língua portuguesa sem lhe aniquilar as singularidades locais. Neste sentido, apesar de possíveis problemas, eventuais erros ou possíveis lacunas, parece-me que este acordo é um passo em frente, um passo positivo nesse desígnio e um dado positivo na afirmação do português no mundo.

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