segunda-feira, 11 de março de 2013

Uma carta de Jorge Telles de Menezes


"Ao Fernando Morais Gomes,
num aniversário (o 8.º) da Alagamares

Não fui ao evento, amigo Fernando, mas as ideias que queria lançar, ficaram em casa, não saíram de mim. A primeira palavra seria sempre de agradecimento por tudo quanto a Alagamares tem feito por Sintra fazendo em simultâneo votos para que prossiga nesse trilho que desde o início seguiu, o trilho da consciente e determinada defesa da Cultura, não só enquanto Paisagem construída, mas em muitas das suas vertentes, imbuída sempre de um espírito humanista e fraterno. A Alagamares é hoje uma instituição cultural que emana da sociedade civil e que congrega e atrai para a sua dinâmica as melhores e mais lúcidas vontades de Sintra.
Em seguida, discorreria sobre a necessidade de refundarmos os nossos sonhos colectivos. Os nossos mitos estão a precisar de ser lubrificados com nova vida, uma seiva que povoe outra vez o nosso imaginário, porque pior do que não ter quase nada para comer, é sempre para um povo não ter quaisquer ideais, abdicar da capacidade de sonhar um futuro mais humano e mais justo. Por outras palavras, que o vento Euro nos leve todos os trocos dos bolsos, nos espolie do que nossos avós tanto lutaram para que fosse património material do nosso país, mas que não levem a nossa alma, a nossa vontade de sonhar uma sociedade diferente.
Que D. Afonso Henriques surgisse hoje como uma procuradora-geral da República sem medo dos bandidos organizados, das quadrilhas que tanto têm desgovernado esta terra. Que lhes irrompesse pelos escritórios dentro, que revistasse os seus cofres, que seguisse o rasto dos desfalques até essas ilhas onde os piratas escondem os seus tesouros, como animais egoístas e monstruosos que são. E que depois de os deixar julgar em público por D. Pedro I, o Justiceiro, fizesse de novo leis nesta abençoada terra contra a usura, e de todos os Portugueses fizesse os defensores dos princípios imortais que sempre nos hão governar: tolerância face a todas as diferenças, liberdade religiosa e política, espírito empreendedor.
Que um novo Eusébio surgisse como o advogado de todas as minorias étnicas e religiosas, e as levasse para o Parlamento, para aí deixarem ouvir a sua voz. Uma Assembleia multicultural, onde se sentariam também os nossos irmãos Índios do Brasil, ou esses que tão nobremente lutaram para ser um povo nosso irmão, os Timorenses. Um advogado do povo, que como João das Regras soubesse defender não só os mais fracos, mas que apontasse e seguisse o espírito da História.
Uma Nossa Senhora da Concepção que insuflasse de amor as nossas almas, e que deixasse de reinar invisivelmente para se materializar numa nova presidente, numa suprema magistrada, numa combinação de D. Filipa de Lencastre, D. Maria II, Maria de Lourdes Pintassilgo. Uma mulher que lutasse até ao fim para acabar com os restos do estúpido machismo, sensível ao sofrimentos dos humanos e dos animais, que indicasse novos modos mais delicados e fraternos nas relações entre homens e mulheres. Uma educadora e uma pedagoga, protectora e mecenas de todos os artistas, que nos ensinasse novos e saudáveis hábitos alimentares, e estilos de vida mais despreconceituosos e livres.
Que novas Leis das Sesmarias vigorassem em todo o país: terra para quem a quer trabalhar.
Que de D. Dinis revivesse o espírito de um poeta lavrador na mente iluminada de uma poderosa ministra da Agricultura, que seria uma reencarnação de uma Amália ecologista e amiga da agricultura biológica. Que as melhores terras voltassem a ser lavradas e os especuladores imobiliários fossem construir no deserto. Que fizesse voltar a velha floresta portuguesa, e mandasse para o deserto da Austrália todos os que pensam que os eucaliptais que tudo secam são o nosso “petróleo verde”. Uma ministra que amasse a terra, o povo e a sua alma, como uma Amália permacultora.
Um ministro da Economia com a sabedoria de Agostinho da Silva, com a liberdade de pensar que do mar, do vento, da chuva poderá vir toda a energia de que a nossa sociedade necessita para produzir e viver. Que promovesse o associativismo e a cooperação em todas as actividades económicas. Um ministro que filosofasse em torno do princípio da vida grátis, e que não permitisse especulações com as necessidades básicas do ser humano: habitação, saúde, educação, alimentação. Aqui não haveria transigência, e o modo capitalista de produção teria de encontrar substitutos para a sua actividade usurária, talvez na indústria da exploração espacial.
Assumirmos colectivamente que os personagens exemplares da nossa história e pensamento estão vivos entre nós, que nos transmitem vitalidade para combatermos por um Portugal maishumano, mais justo, mais livre e mais sábio."
Jorge Telles de Menezes.

Sobre Jorge Telles de Menezes
À poesia e ao jornalismo literário – foi director interino do Jornal de Sintra,  encontra-se ligado à criação de um novo jornal on-line, Selene Culturas de Sintra, e assina uma rubrica para a revista Nova Águia, intitulada “As Ideias Portuguesas de George Till” – junta-se uma prolífera actividade de tradutor . A obra literária publicada de Telles de Menezes enceta com uma edição bilingue de textos em prosa poética, Numa Cidade Estranha / In einer fremdem Stadt (Berlim, Edition Sonnenbarke, 1983, trad. dos poemas para alemão por Cornelia Fuchs) e passa, em 2003, por Selenographia in Cynthia (Lisboa, Hugin, 2003), um volume que congrega experimentações de uma voz poética surpreendente, tendo como pano de fundo as cenografias pré e pós-históricas da adoração à Sintra Lunar. Novelos de Sintra (Porto, Afrontamento, 2010) dá consistência à ideia de Sintra como lugar de utopia, destino de todos os poetas lunares.

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