segunda-feira, 11 de março de 2013

Os jovens e a hora que passa


É patente uma menor participação de jovens nos protestos de massas que se vêm repetido pelo país, não obstante alguns mais criativos surjam de quando em quando, minoritários embora. Viu-se no 2 de Março e observa-se na anomia dominante no que respeita a participação na vida colectiva ou no movimento associativo, naquilo que implica sair das zonas de conforto ou da frente do computador.
Se bem que negativa, essa atitude tem uma explicação, que radica sobretudo na resistência a modelos por eles tidos como tradicionais, aí ressaltando uma atitude geracional; por outro, pela precariedade e falta de horizontes de carreira e futuro que os mantêm na franja do sistema.
A taxa de desemprego entre os jovens na União Europeia situa-se globalmente acima de 17%, e segundo a Organização Internacional do Trabalho cairá para cerca de 15% em 2017. Não por terem aumentado as perspectivas de emprego, mas porque em muitos casos os jovens estarão a afastar-se do mercado de trabalho, desistindo de procurar emprego e saindo assim das estatísticas. Em simultâneo, muitos tenderão a deixar de estudar engrossando uma nova geração a que os tecnocratas já chamam de NEET: neither education nor employment (nem a estudar nem com emprego).
Em Maio, a OIT revelou que a taxa de NEET’s subiu 1,9% na União Europeia entre 2008 e 2010 (antes da crise (2008) a taxa situava-se nos 10,9%).
Também o crescimento do mercado de trabalho em part-time entre os adultos (maiores de 24 anos) estará a contribuir para o aumento destes números, quando 17% dos trabalhadores informais já são jovens.
Portugal estava no fim do ano com uma taxa de desemprego jovem de 36,4%( 29,4% no mesmo período do ano passado), quando a média da União Europeia a 27 é de 22,5%.
Face a isto, há que olhar para os jovens com prioridade, a todos os títulos: para que eles se realizem profissionalmente e possam constituir família, aumentar a natalidade e ser autónomos; para que como contribuintes possibilitem o aumento na cobrança de impostos, com que se financie a economia; para que como consumidores, dinamizem o mercado e a distribuição de rendimento; e para que com o seu contributo arejado e inovador tragam massa crítica e desenvolvimento à sociedade que por ora vai assistindo ao seu desperdício geracional. Daí que muitas mais medidas são precisas, para além dos estágios de empregabilidade duvidosa, ou a redução da taxa social única às empresas que contratem jovens, que apenas servirá para facilitar o despedimento oportunista dos mais velhos. São precisos mais estímulos à contratação de jovens, mais crédito para os empreendedores que queiram tentar o seu negócio, criando empresas startup ou vocacionadas para a investigação e o desenvolvimento, mais renovação na administração pública, permitindo a revitalização das gerações e a mudança de mentalidades. Sob o signo da crise, é preciso que a geração NEET não tenha vindo para ficar, incubando frustrações, violência e anomia.
Jacques Rancière, no seu livro Momentos Políticos, uma selecção de escritos dos últimos 30 anos, escreveu que se tornou cada vez mais evidente que os Estados agem apenas como intermediários para impor aos povos a vontade dos poderes financeiros. Em toda a Europa, os governos, de direita como de esquerda, aplicam o mesmo programa de destruição dos serviços públicos e da protecção social, que garantiam um mínimo de igualdade no tecido social, revelando-se a oposição entre uma oligarquia de financeiros e políticos, e a massa do povo submetida à precariedade sistemática e sem poder de decisão (tal como o referendo anulado na Grécia o demonstrou). Estarão pois reunidas as condições para um momento político, isto é, um cenário de manifestação popular contra o aparato de dominação. Mas para que esse momento exista, não é suficiente que se dê uma circunstância, mas também que esta seja reconhecida por forças susceptíveis de transformá-la numa demonstração, intelectual e material, e de converter essa demonstração numa alavanca capaz de mudar a paisagem do “perceptível e do pensável”. Segundo ele, o movimento do 15-M, em Espanha, por exemplo, mostrou claramente a distância entre um poder real do povo e as instituições. Resta a capacidade de transformar um protesto numa força autónoma, representativa e independente.
Os movimentos do 15-M ou do Ocupy Wall Street, por exemplo,  respondem à ideia do poder próprio daqueles que nenhum motivo destina ao exercício desse poder, e esse poder materializou-se, subvertendo a distribuição normal dos espaços. Geralmente há espaços, como as ruas, destinados à circulação de pessoas e bens, e espaços públicos, como os parlamentos ou os ministérios, destinados à vida pública e o tratamento de assuntos comuns. Um renascimento da política passará pela existência de organizações que se subtraiam a essa lógica, que definam objectivos e meios de acção construindo uma dinâmica própria, espaços de discussão e formas de circulação de informação visando o desenvolvimento de um poder autónomo de pensar e agir. E os jovens são o alfa e o ómega desse poder.
Em Maio de 68, as pessoas discutiam Marx, e não parece haver nenhum filósofo atrás dos recentes movimentos. Mas, segundo Rancière, o que se discute hoje é uma visão do mundo que estruture naturalmente estas novas formas de acção colectiva. Em Maio de 1968, a explicação marxista do mundo funcionou no âmbito de uma visão histórica pela qual o capitalismo estaria condenado a desaparecer pela acção da classe trabalhadora. Os manifestantes de hoje não possuem horizonte histórico para o seu combate e são antes de tudo indignados, pessoas que rejeitam a ordem existente, que não podem considerar-se agentes de um processo histórico, e é isto que alguns aproveitam para escamotear, desqualificando o seu idealismo e o seu carácter “inorgânico”.Com estes movimentos, há uma interrupção da lógica da resignação à necessidade histórica preconizada pelos governos. Desde o colapso do sistema soviético, o discurso intelectual contribuiu para endossar os esforços para implodir as estruturas colectivas de resistência ao poder do mercado. Esse discurso acabou. Seja qual for o seu futuro, os movimentos recentes põem em xeque essa fatalidade histórica, lembrando que não lidamos com uma crise da sociedade, mas sim com uma ofensiva destinada a impor formas brutais de precariedade.
Para restaurar os valores democráticos, é necessário chegar a acordo sobre o que chamamos democracia. Habituámo-nos a identificá-la como um duplo sistema de instituições, as representativas e as do mercado. Hoje, isso é coisa do passado: o mercado mostra-se cada vez mais como uma força de constrangimento que transforma as instituições representativas em meros agentes da sua vontade, e reduz a liberdade de escolha dos cidadãos às variantes de uma mesma lógica. Nesta situação, ou se denuncia a democracia como uma ilusão, ou se repensa o que esta significa. Porque a democracia não é uma forma de Estado, é antes de mais a realidade de um poder do povo que não deve nem tem de coincidir com uma específica forma de Estado. Sempre haverá tensão entre a democracia como exercício de um poder partilhado de pensar e agir, e o Estado, cujo princípio é apropriar-se desse poder, justificando essa apropriação com a complexidade dos problemas, ou a necessidade de se pensar a longo prazo. Recuperar os valores da democracia será, pois, em primeiro lugar, reafirmar a existência de uma capacidade de julgar e decidir, que é de todos, frente a essa monopolização, e reafirmar a necessidade de instituições próprias, distintas do Estado. A primeira virtude democrática é a virtude da confiança na capacidade de qualquer um, e o poder dos cidadãos acima de tudo, o poder de agir por si próprios, e constituir-se em força autónoma. A cidadania não é uma prerrogativa ligada ao facto de se haver sido contabilizado nos censos, como habitante ou eleitor, ela é, acima de tudo, um exercício que não pode nem deve ser delegado. É pois preciso opor claramente o exercício da acção cidadã aos discursos sobre a responsabilidade dos cidadãos na crise da democracia, que lamentam o desinteresse dos cidadãos pela vida pública e o imputam à deriva individualista dos consumidores penalizados. Essas supostas chamadas à responsabilidade só têm, na verdade, e segundo Rancière, um efeito: culpar os cidadãos, para prendê-los mais facilmente no jogo que consiste em seleccionar aqueles por quem os cidadãos deverão deixar-se capturar na sua possibilidade de agir fora do momento do voto. Estamos pois num ponto de mutação na ideia de democracia, num sentido mais denso e sentido, cuja próxima fase será a de encontrar vozes e meios com vista a ocupar o seu lugar numa sociedade cuja construção/destruição está dramaticamente em curso. E nela, os jovens têm um papel a desempenhar, o qual, com escolhos e tropeções está ainda a começar.
A aposta é na juventude, e preciso é trazê-la á rua, à escola, aos movimentos culturais, transmitindo-lhes a confiança de serem parte do Nós e não uma soma de Eus paralisados frente a um hipnótico computador. Quem adere?

Fernando Morais Gomes

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