sábado, 22 de dezembro de 2012

Colóquio em defesa das árvores- 28/4/2012

Visando debater de forma aberta e plural a temática da defesa da floresta e da protecção do coberto vegetal em Sintra, nas suas várias vertentes e prismas, promoveu a Alagamares no dia 28 de Abril passado um debate na Sociedade União Sintrense, para o qual convidou técnicos, entidades e ambientalistas, com vista a salientar as boas e más práticas e ajudar a apontar soluções, numa óptica de participação positiva que a todos, como “jardineiros” deste território hoje património da humanidade, está cometido. Vídeo em

http://www.youtube.com/watch?v=tiIRTi474C0



Iniciou o debate o arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, o “pai” da Reserva Agrícola e da Reserva Ecológica e um dos principais rostos da política de ambiente das últimas décadas em Portugal. Enfatizando o papel da árvore no jogo entre o colectivo e o convívio, Ribeiro Telles lembrou ser a eco indispensável ao desenvolvimento, ironizando ter sido por a ter descurado “sido o homem expulso do paraíso”. Vivemos na era do Caos, prosseguiu, o que dificultou a potencialidade da fixação. Segundo ele, são os países que garantem a biodiversidade os que mais têm potencialidade de segurança, tendo sido a compartimentação dos espaços agrícolas o que permitiu o desenvolvimento da civilização actual.

Garantir um contínuo verde através das cidades deverá ser um mandamento do planeamento, enfatizou, na luta contra o Caos e distribuição especulativa do território.”Continuamos no tempo da mancha e não do desenho do paraíso”, rematou, referindo-se à visão fragmentada que os instrumentos de gestão territorial fazem de realidades amplas e interligadas.


Eugénio Sequeira, da Liga da Protecção da Natureza, detendo-se no tema da árvore em espaço urbano, refutou o entendimento de que se possam fazer podas em árvores decorativas como as feitas em árvores de fruto, vincando a necessidade de manter as árvores na medida do possível. “Para quê cortar a totalidade quando só 20% estão doentes?” questionou. Tem de se fazer mais para salvar as árvores, e nesse processo a auscultação das pessoas é fundamental, bem como trazer as populações para a gestão das zonas verdes.

Nuno Oliveira, em representação da Parques de Sintra-Monte da Lua, que gere 550 hectares de território dentro da Área de Paisagem Cultural classificada como Património Mundial, caracterizou a serra de Sintra como zona de eucaliptos, pinheiro bravo e espécies invasoras, e salientou o facto de não terem havido intervenções na mata recentemente, embora a PSML esteja atenta à invasão das lenhosas para as quais preconiza abates especiais, sendo essa uma tarefa a longo prazo, bem como a arborização de áreas intervencionadas (60 hectares mais, até ao fim de 2012). Referiu também terem sido georeferenciadas 18.000 árvores na zona da PSML e mais de 35.000 árvores dentro do Parque da Pena, estando em curso a classificação e medição desse vasto património arbóreo. Quanto às podas, distinguiu as efectuadas na área da PSML, tendo sobretudo em vista a segurança dos visitantes, que critérios de alinhamento ou segurança, típica das intervenções em zona urbana. Os abates ocorridos têm sido precedidos de relatórios fitossanitários com base numa avaliação técnica consciente.

O director do Departamento de Ambiente da Câmara de Sintra, Carlos Albuquerque enfatizou ter nos últimos anos aumentado a participação dos cidadãos em torno destes temas, bem como ter vindo a reduzir o número de reclamações junto da autarquia. Anunciou a edição de uma brochura “´´Árvore Morta, Árvore Posta”, na qual de forma pedagógica se pretende explicar o que vai acontecer após o abate de árvores. Concordou com a necessidade de um contínuo natural, propugnando que a próxima revisão do PDM consagre esse contínuo na vertente norte-sul, sob pena de o Parque de Sintra-Cascais ficar cortado ao meio. Reiterou uma melhoria nos procedimentos municipais, ao publicitar e divulgar os relatórios previamente às intervenções, numa melhoria na relação com os munícipes em comparação com procedimentos anteriores.


 O representante do ICOMOS regozijou-se pela realização desta iniciativa e referiu que “espécie invasora, a bem dizer, é o Homem” e informou que esse organismo vai fazer a monitorização das áreas classificadas como Património Mundial.

O representante da Sociedade Portuguesa de Alergologia, Rui Brandão, da Universidade de Évora, procurou desfazer alguns mitos em torno das árvores como fonte de alergias. Segundo ele, não há relação directa entre a exposição a agentes polínicos e as alergias respiratórias, sendo as espécies mais problemáticas a oliveira e a criptoméria japónica. Igualmente não serão os polens os responsáveis pelas atopias respiratórias ou manifestações alérgicas, nem as irritações podem ser tidas como alergias. São as coníferas quem mais produz o pólen, mas o pólen é pobre em proteínas e para haver reacções alérgicas terá de se verificar a existência dessa proteínas, explicou.

Aberto o debate, usaram da palavra diversos participantes. André Beja, salientou a degradação da floresta e a falta de vigilância, bem como o facto de as podas não serem correctamente executadas. Deplorou não haver presentemente jardineiros em número suficiente ou viveiros da autarquia, que atribuiu à política de outsourcing praticada, constatando que dos abates de árvores recentemente ocorridos em Sintra, só alguns considera justificados, sendo que menos de metade das árvores foram repostas. Pedro Macieira criticou os cortes selvagens com recurso à técnica de rolagem e João Pereira chamou a atenção para outras zonas do concelho, como o Cacém, onde a arborização é secundária.


Depois de Bruno Quinhones questionar o tipo de espécies e sementes usadas nas novas sementeiras, Adriana Jones, da ADPS, fez uma intervenção condenando a extinção do Conselho Municipal de Ambiente e a paralisia do Conselho Consultivo do Parque Natural Sintra-Cascais, bem como a falta do Plano Verde, já elaborado em 2005. Outros intervenientes abordaram casos pontuais de abates e podas na Correnteza e em Monte Santos (Luísa Morais) o destino das madeiras ou seu abandono nas bermas (Esmeralda Luís) os cortes no Largo do Morais (Jorge Menezes) ou a prática de desportos radicais na serra(José Manuel Laranjo). Uma participante questionou mesmo se a nova brochura anunciada pelo director de Ambiente da CMS foi precedida de consulta ou auscultação pública.

Os participantes responderam às questões, dirigidas sobretudo aos representantes da PSML e da Câmara Municipal, tendo sido informado ir a Parques de Sintra plantar 50.000 novas árvores, e serem as sementes usadas inteiramente certificadas, até por imposição de directivas europeias, no âmbito dos concursos de aquisição. Tanto o representante da PSML como o da CMS apelaram a mais acções de voluntariado, sobretudo no arranque das acácias, reiterando Carlos Albuquerque ser de incrementar uma cultura de contacto com os munícipes.

Postas mais de 3 horas de profícuo debate e troca de informações, entende a Alagamares ter sido dado um contributo para essa cultura de contacto, em que se troquem informações, ouçam os parceiros da sociedade civil, desmistifiquem falsas verdades e se chamem as populações a contribuir na preservação do território do qual é toda ela beneficiária. A Alagamares voltará ao tema, neste ou noutro figurino, numa óptica de participação positiva e disponibilidade para construir pontes e  tornar o  diálogo permanente.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Caminhada em S.João das Lampas 5/5/2012

Promoveu a Alagamares no dia 5 de Maio o Roteiro do Pão e da Água na freguesia de São João das Lampas, um passeio pedonal de índole cultural e histórico por várias locais notáveis daquela freguesia do concelho de Sintra. Partindo da Igreja Matriz, percorreu-se São João das Lampas, Bolelas, Amoreira, Monte Arroio, Odrinhas, Barreira e Areias, tendo o passeio propiciado a observação e explicação de alguns pontos de interesse, como moinhos, fontes, a igreja matriz, a capela do Espírito Santo, a arquitectura popular e vários locais de interesse ambiental e paisagístico. Algumas fotos:
































Outras fotos. Maria do Céu Raposo:


 

Maio de 2012-Reabriu o Salão de Galamares


Inauguradas as obras de restauro do Salão de Galamares,que se prolongaram por vários anos, e por impulso popular, novo desafio se coloca visando potenciar o local como pólo de atracção de eventos culturais e de convívio, numa localidade onde poucos mais equipamentos existem.

Com uma população de pouco mais de 700 habitantes, envelhecida e com o comércio local anémico, Galamares há muito perdeu o fulgor bucólico das 7 pensões de veraneio dos anos 40 ou de refúgio estival de escritores e artistas, quando Lisboa ainda ficava a 3 horas e o eléctrico rasgava as suas estradas bordejadas de plátanos  frondosos e chalés de Verão. A juventude é pouca e pouco motivada para a vida colectiva, daí que todo um trabalho de mobilização visando centrar no espaço deste salão renascido um pólo de actividades criativas seja a tarefa que se impõe. Ateliers criativos, acções de voluntariado, cursos de defesa ambiental, um grupo de teatro ou visando iniciativas multimédia, todas estas podem ser ideias que, a par da vertente lúdica e de coesão social, para ali poderão fazer confluir não só os moradores de Galamares, como os das povoações vizinhas, a pensar no futuro.Depois de recuperar, é a hora de consolidar.
Algumas memórias fotográficas de eventos no Salão de Galamares e da actividade do Grupo Desportivo e Cultural de Galamares:
O anúncio de um baile a 20 de Abril de 1957, com o grupo Os Mexicanos, de que foi vocalista Vasco Pedroso
O carro alegórico do Galamares, a caminho dum desfile em Colares. Atrás, o velho Carapinha.
O Galamares, num desfile nos anos 80
A secção de Atletismo, muito activa nos anos 80 e 90
Edgar Azevedo, fundador do Grupo Desportivo e Cultural de Galamares e seu sócio nº1
 

Encontro com Rui Zink- 15/9/2012

15 de Setembro- Tertúlia com Rui Zink, moderada por Miguel Real, no Café Saudade, Sintra


 
No reinício de actividades após as férias, a Alagamares tem projectado um conjunto de tertúlias mensais, moderadas pelo escritor e crítico literário Miguel Real, no quadro das quais e sempre em locais diversificados serão convidadas figuras da cultura portuguesa, para falarem desta e da sua obra. O primeiro desses encontros teve lugar no dia 15 de Setembro, no Café Saudade, em Sintra, perto da estação da CP, e estando previstos para sessões futuras personalidades como Maria Teresa Horta, João de Melo ou Mário de Carvalho, entre muitos outros.

Rui Zink é professor auxiliar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa desde 1997, onde se licenciou em Estudos Portugueses , em 1984, e obteve os graus de mestre em Cultura e Literatura Popular  e de doutor em Literatura Portuguesa. Foi igualmente Professor do Ensino Secundário, Leitor de Língua Portuguesa na Universidade de Michigan (1989-1990) e Professor Convidado na Universidade de Massachussetts Dartmouth (2009-2010).

Autor de vários livros, entre ensaios e ficção, salientam-se os romances Hotel Lusitano (1987), Apocalipse Nau (1996), O Suplente (1999) e Os Surfistas (2001), e os livros de contos A Realidade Agora a Cores (1988) e Homens-Aranhas (1994) e O Anibaleitor (2006). Colaborou em jornais e revistas, de que salienta o semanário O independente(1991) e a revista K (1992). Fez tradução literária, de autores como Matt Groening, Saul Bellow e Richard Zenith. 

Rui Zink recebeu o Prémio do PEN Clube Português pelo romance Dávida Divina (2005), e representou o país em eventos como a Bienal de S.Paulo, a Feira do Livro de Tóquio ou o Edimburgh Book Festival. Nesta sessão, onde se revelou bem disposto, falou da sua experiência como escritor e autor, do papel da literatura portuguesa, de Saramago e Lobo Anunes, de Vasco da Gama como psicanalista da História Portuguesa, e da sua paixão pelo sr.Oliveira da Figueira, o português das histórias de Tintin. Uma noite bem passada com um autor irreverente e mestre da ironia.
 

Repetições da História, por Eugénio Montoito

Eugénio Montoito "um pouco de historiador, muito de aprendiz de feiticeiro, e funcionário público autárquico assumido, com muita honra e orgulho" escreve sobre um tema candente de hoje, e de ontem, também. Para ler abaixo.




Nas minhas andanças de investigação literária e arquivística, tenho-me deparado com situações que, na sua substância, na sua oportunidade ou no seu propósito, se aproximam das realidades vividas no meu tempo.

É óbvio que o encaixe da observação deste passado na perspectiva de interpretação do presente será, sempre, diferente, independentemente, de podermos estar perante uma leitura de simples coincidência de acontecimentos, de uma casualidade provocada por iguais razões ou, até, por reconhecimento de semelhanças, influenciado pelos condicionalismos do espírito de época ou de sensibilidades ideológicas militantes. Todavia, podemos afirmar, com base no saber adquirido, que o acontecimento de hoje é (mesmo com o desconto da subjectividade da interpretação), a repetição do passado.

Ora, perante esta tese, somos de observar que os sentires, as angústias, as dúvidas e os temores do nosso quotidiano são idênticos às vividas pelos nossos pais, pelos nossos avós e, por todos aqueles que nos antecederam. Decerto, que as conversas que dantes se faziam no adro da Igreja, depois da missa e, hoje, se fazem em redor da mesa do café, falam a mesma linguagem de desespero, de incompreensão, de raiva e de incapacidade.

Como nos escreveu Miguel Real, em O Último Eça (2006), na diferença do tempo e passados cento e quarenta anos, vivemos o mesmo Portugal que Eça conheceu, onde as instituições, também, estão aberradamente constituídas, em que a classe política que nos governa é de uma forma geral medíocre e ignorante, em que o Parlamento está transformado em “centro de dia” de bate-palmas focídeos, desproporcionado ao tamanho do país e desencontrado dos seus interesses, em que os patrões se sinonimam em empresários especulativos, mais preocupados com renovação do parque automóvel pessoal do que com as novas tecnologias produtivas, em que os trabalhadores se prendem às vontades partidarizadas dos seus sindicatos, em que as elites sociais vivem obstinadas na fama mundana de o ser a qualquer preço, desde que isso não implique o ético “suor” do estudo e do trabalho; Enfim, um mesmo povo bárbaro, inculto e manobrado em crenças, clubites, passerelles dos ditames da moda ou ociosidades imbecis, agora mais próprias de deambulações por espaços comerciais ou visionamentos de serões televisivos. Como nas Farpas queirosianas «o país vive numa sonolência enfastiada… Não é uma existência, é uma expiação. [E] a certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências, [porque, é fácil ouvir] por toda a parte: o país está perdido!»

Igualmente, neste paralelismo do viver histórico, encontrado nas conversas dos avós dos nossos avós e nos desabafos do nosso tempo, não podemos deixar de observar que, também, existem interpretações idênticas sobre as situações de sossego, agrado ou realização. Nem tudo se resume a um pessimismo absoluto, apesar de ser difícil compreender porque é que, ainda, não se aprendeu com o passado e se repetem, constantemente, os mesmos erros. Ou seja, numa síntese de razão de resposta, sem pragmatismos fundamentalistas nem fugas para zonas cinzentas, admitimos que o Homem é um ser bipolar que age em sociedade, na transferência do tempo, dos momentos e dos exemplos, numa postura de magnânima solidariedade ou numa gananciosa individualidade, por isso a dor (ou a alegria), o desassossego ou a acalmia de hoje é a mesma de ontem. A solução prioritária, que merece o nosso cuidado e a nossa atenção, encontramo-la na ideia de Rob Riemen: “quem não aprende com a História está condenado a vê-la repetir-se”.

Resta-nos, por fim, apontar a leitura deste documento, encontrado perdido por entre papéis municipais de outros tempos e deixar o convite de se fazer o paralelismo e a repetição na História:

«Senhores Deputados da Nação Portuguesa

A Câmara Municipal do Concelho de Sintra e os abaixo assinados, proprietários do mesmo concelho, vêm mui respeitosamente pedir à Câmara dos representantes do povo, para não autorizar com o seu voto a proposta do Exº Ministro da Fazenda que vem aumentar com mais 6% as já pesadíssimas contribuições do Estado.

Senhores, ninguém desconhece as graves dificuldades com que a agricultura há muito está lutando no nosso Pais; Todos sabem que a propriedade rústica, quando muito, pode render 3% sobre um capital que a maior parte das vezes não é realizável; Todos conhecem os efeitos desgraçados da filoxera e do míldio; A baixa de preço nos mercados estrangeiros das nossas frutas de espinho, concorrência nefasta que nos está fazendo a América com as suas frutas de caroço próprias para conservas, finalmente a decadência de preço em todos os cereais, que junto ao extraordinário aumento de salários, torna quase impossíveis em determinadas zonas estes géneros de cultura.

Senhores, em vista das razões expostas esperam os abaixo assinados que a Câmara dos Representantes do Povo, em harmonia com a sua origem não sancione com o seu voto, um tão extraordinário aumento de impostos, que só uma administração nefasta e ruinosa poderia justificar.

Portanto os abaixo assinados esperam do patriotismo da Câmara dos Senhores Deputados que a proposta será rejeitada.

E. R. M.cê

[seguem-se 265 assinaturas]»

FICHA DOCUMENTAL

1. [Data]

Documento não datado. Pela apresentação gráfica e conteúdo informativo somos de atribuir uma datação compreendida no último quartel do século XIX. Aliás, a assinatura que encabeça o documento permite-nos justificar a nossa observação (António Maria Dias Pereira Chaves Mazziotti, natural de Colares, foi Secretário da Junta do Crédito Público, em representação do Governo e, em várias legislaturas, de 1880 a 1908, foi Deputado pelo Partido Progressista, representando o Círculo de Sintra – Para complemento informativo, ver: de Fernando Morais Gomes

 http://reinodeklingsor.blogspot.com/.../chaves-mazziotti-deputado-de-sintra... [página de 13 de Maio de 2011]).



Eugénio Montoito, escrevendo de acordo com a antiga ortografia.

 

Baleia, 23 de Agosto de 2012
 

Tertúlia com Maria Teresa Horta- 20/11/2012





Realizou-se no dia 20, no Legendary Café, em Sintra, uma tertúlia literária promovida pela Alagamares, com a presença da escritora Maria Teresa Horta, apresentada pelos escritores e ensaístas Miguel Real, António José Borges e Vítor Oliveira Mateus. Sendo a mesma por estes dias referenciada sobretudo pelo seu premiado As luzes de Leonor, ou por ter recusado receber do primeiro-ministro o Prémio D.Diniz 2011 da Casa de Mateus (que ainda não recebeu, aliás, como seria de Direito, numa altura em que, ironicamente, o prémio foi já extinto…) durante a sessão se falou da sua obra e relembraram os 40 anos da publicação das Novas Cartas Portuguesas, intemporal obra a três mãos sobre a mulher e a sua circunstância, e de que Maria Teresa Horta foi uma das autoras malditas.
Tendo como fio condutor as “Cartas Portuguesas”, romance publicado em 1669, e no qual Mariana Alcoforado, uma freira enclausurada num convento em Beja, remete ao cavaleiro de Chamilly cinco cartas inflamadas recordando a paixão por ele, e com ele experimentada, as autoras, lançando uma pedrada no charco dum Portugal cadaveroso, de mulheres-objecto e mulheres-sofrimento, escreveram um fresco tendo por centro mulheres, mães e amantes, sofredoras e lascivas, prisioneiras de maridos ou escravas dos altares.

Considerado um manifesto contra a discriminação, e pelo direito à diferença entre homens e mulheres, as Novas Cartas Portuguesas, de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, escandalizaram, revelando ao mundo a existência de situações discriminatórias em Portugal, relacionadas com a repressão da ditadura, o poder machista em vários patamares da vida social, e a condição da mulher, levando-as a ficarem nacional e internacionalmente conhecidas como “as três Marias”. Após a publicação, a obra foi proibida pela censura, e aberto um processo contra as autoras, que foram absolvidas apenas depois do 25 de Abril. Durante a sessão, Teresa Horta falou das perseguições, e até de um espancamento de que foi nessa altura alvo, e a quem tentaram colar a imagem de mulher de vida fácil, para assim melhor a condicionar, e ao seu trabalho.
                               As Três Marias, ao centro, Maria Teresa Horta

Composto de fragmentos, o que expressava a própria condição da mulher portuguesa, não duma Mulher, mas de Mulheres, essa obra transmitiu a mensagem de que estas têm voz, sabem e podem falar. E, se os tempos hoje são outros, a subsistência de situações como a violência doméstica, a prostituição, ou o ainda precário papel da mulher no mundo do trabalho, sobretudo o menos alfabetizado, não devem deixar de continuar a preocupar uma sociedade de muitas Marias ainda. Esse foi também o tempo em que se afirmou uma Teresa Horta poeta, onde o conceito de corpo passou a estar omnipresente, fosse pela ideia de corpo físico, fosse por nesse corpo estar também subjacente uma referência ao “corpo” social ou ao “corpo” do poema, numa linguagem erotizada, nunca vernácula ou pornográfica, antes e sobretudo na senda da beleza materializada em poema.

Premiada com o seu recente As luzes de Leonor, que levou treze anos a escrever, a autora revela-se nessa obra como uma tecedeira da linguagem, dominando a trama e ao mesmo tempo deixando-se dominar por ela, Penélope angustiada que por fim reencontra o seu Ulisses, e em boa hora o faz, presenteando-nos com uma obra de fôlego e um jogo de espelhos do mais estimulante que a literatura portuguesa produziu recentemente, uma prosa luminosa e iluminada, partilhando com os presentes os receios e fantasmas desses treze anos de “tecelagem”, e confessando mesmo uma certa orfandade por finalmente a obra ter sido editada, obra duma mulher sobre mulheres, intemporais na patrulha de consciências e em holográfico diálogo com a autora, umas vezes dominando-a, mas sendo por si dominada noutras.

Tendo como figura central a  figura da Marquesa de Alorna, Leonor de Almeida Portugal, neta dos Marqueses de Távora, Maria Teresa Horta persegue-a ao longo do romance, ao mesmo tempo que, como escreveu Miguel Real no Jornal de Letras, produz «[…] sem dúvida um dos maiores romances biográficos da literatura portuguesa e, também sem dúvida, uma narrativa que marcará doravante os estudos sobre o Iluminismo Português e as origens do Romantismo oitocentista em Portugal, para além de marcar profundamente os estudos sobre a marquesa de Alorna […]

Tempo houve ainda para com os presentes partilhar palpitações e inseguranças com os dias que passam, de liberdade que, se existe, passou a ser condicionada, por receio dessa arma ameaçadora de qualquer sociedade: o Medo. Medo que chegou na avara e cautelosa contenção da palavra, para não fazer perigar o emprego periclitante, ou pela preocupante escuta telefónica soez, ou com o pouco inocente vírus informático. Pegando nas palavras de Rui Zink, o anterior convidado desta série de tertúlias, a sociedade portuguesa vive hoje na paranóia de esperar que alguém bata à porta e perguntado quem é, esse alguém responda: ”é para vir instalar o medo…”.

Se como escreveu Simone de Beauvoir, as mulheres não nasceram mulheres, foi a vida quem as foi tornando mulheres, nelas reside força na aparência da fraqueza, e delas vem a Vida-Luz, sinal também de que, como também enfatizou Aragon, de manhã ou à noite, em torno da Mulher tudo, afinal, se movimenta. E, no caso de Teresa Horta, por estes dias, com a revelação de uma nova luminosidade, a redentora luz de Leonor, que aos presentes na tertúlia redentoramente iluminou e inspirou.



 

Chalé da Condessa, a saga continua



Apesar de os trabalhos de recuperação do Chalé da Condessa e sua envolvente estarem em grande parte concluídos, no que constituiu uma causa da Alagamares desde 2006,


nem por isso deixa a sociedade civil de Sintra de acompanhar com critério os desenvolvimentos de tudo o que se prende com a intervenção aí ocorrida, no desenvolvimento de um raro ciclo virtuoso na recuperação do património em Portugal.

Iniciada num período em que os habituais procedimentos herdados do passado pareciam anunciar mais do mesmo, isto é, incúria e esbanjamento de recursos públicos em prol de “amigos” e “correlegionários”, a administração da PSML,  desde 2006 sob a égide do prof. António Lamas, teve o condão de, além de se debruçar a sério sobre o dossiê, viabilizar e captar uma série de apoios financeiros internacionais, noruegueses sobretudo, e vencer resistências junto dos stakeholders locais, que desde então passaram a acompanhar a gestão, e a ser ouvidos pela sua administração, bem como pelas missões da UNESCO que desde então visitaram Sintra.

Vítima do fogo em 1999, em ruínas até 2006, foi por força dessa equipa, e de algumas vozes que pressionaram para a urgência do restauro (nas quais incluo a Alagamares, a Associação de Defesa do Património de Sintra, e cidadãos como João Cachado, Emília Reis, Jesus Noivo, e outros) que em 10 de Maio de 2011 a beleza original do ninho de amor de Fernando e Elise finalmente recuperou vida, e foi devolvida à fruição pública. Durante os anos que demoraram os trabalhos, aos parceiros da sociedade civil sempre foi permitido o seu acompanhamento por parte da administração do Parque (prof. Lamas, dr. Lacerda Tavares) ou dos técnicos no terreno (arq.Lobo de Carvalho, Nuno Oliveira, Inês Moreira, Slava Ruíz, Rita Alves, etc) sempre disponíveis para o “abrir para obras” e recolha de sugestões, adoptando assim uma prática até então desconhecida por parte da entidade gestora, e que a todos congregou em prol do resultado final.

A PSML é hoje um importante agente cultural e dinamizador da Paisagem Cultural de Sintra. Com 1.068.000 visitantes nos seus parques e palácios em 2011, mais 10,4% que em 2010, e um acréscimo de receitas operacionais, que alcançaram nesse período mais de 9 milhões de euros (em comparação com pouco mais de 2 milhões em 2005), continuou, felizmente, e de forma sustentada, na senda das intervenções nas propriedades por si administradas em nome do Estado, tendo visto recentemente alargada a sua jurisdição aos Palácios da Vila e Queluz, e à Escola Portuguesa de Arte Equestre. 

No Chalé da Condessa, novo pólo de atracção, não estando concluídas ainda todas as obras, constata-se com apreço uma evolução bastante positiva, face ao anterior estado comatoso: abriu o Chalé e o Jardim da Condessa, com o apoio do fundo norueguês EEGrants, tendo como parceiro o NIKU- Norwegian Institute for Cultural Heritage and Research, tendo as obras no Chalé orçado em 1.450.000 euros, 60% financiados pelo EEGrants; procedeu-se ao restauro da Sala das Heras, após estudo de materiais e argamassas, tendo sido concluída a parte respeitante à escadaria, alguns tectos e pavimentos; elaborou-se projecto para uma cafetaria e instalações sanitárias, junto à casa do guarda, e actual bilheteira; recuperou-se a Quinta da Pena e o jardim ornamental, no que se despenderam 1.350.000 euros, 45% vindos do apoio do EEGrants; criou-se um parque de estacionamento na Tapada do Mouco, com 65 lugares, sendo 4 para visitantes com mobilidade condicionada; a par de intervenções na floresta, na sinalética, rede eléctrica e caminhos, ou a aquisição de 3 cavalos ardennais para trabalhos de intervenção na floresta e para passeios lúdicos. Também ao nível da segurança contra incêndios, a aquisição do programa Odissey serviu já para a gestão de alarmes, tendo sido experimentado a quando do recente incêndio de 11 de Julho, com origem na Quinta da Capela.

Como contraponto, pode-se apontar o preço cobrado para as visitas, ou para o uso dos espaços e imagem para fins publicitários ou artísticos, sobretudo pelos visitantes nacionais, tendo em conta o período de restrições económicas que vive o país. Falta igualmente um plano abrangente para toda a área da Paisagem Cultural de Sintra, envolvendo a PSML, a Câmara, e a sociedade civil, com uma estrutura única e centralizada de gestão, acabando com as 17 entidades que se atropelam nesse território.

A Alagamares, bem como todos os activistas em prol do património de Sintra, não deixarão de se manter atentos à evolução e conclusão dos trabalhos ainda pendentes, tarefa permanente, mesmo quando os highlights mediáticos já feneceram, sabendo-se que um desastrado desmantelamento da estrutura ou da equipa que nos últimos anos foi congregada, por via de algum corte cego ou malabarismo político, pode a qualquer momento deitar por terra o trabalho já executado, para mais numa época em que a Cultura não é prioritária e se assiste a um paranóico emagrecimento do Estado e seus deveres, também na área do património. Estamos e estaremos atentos.

O Casino de Sintra

Sob projecto de Norte Júnior e iniciativa de Adriano Júlio Coelho e da sua Sociedade de Turismo de Sintra, teve início em 1922 a construção do Casino de Sintra, inaugurado a 30 de Julho de 1924.






Grande e moderno equipamento de lazer, edificado na zona então ainda não consolidada do Bairro da Estefânea, ali ocorreram grandes espectáculos e eventos sociais. Relembre-se em 1926  a actuação do Orpheon de Sintra, dirigido pelo maestro Luís Silveira e Mário Duarte, da cantora lírica Vix, de Auzenda de Oliveira, Fernanda Coimbra, ou Ercília Costa, entre outros, nos catorze anos em que funcionou sob direcção da Sociedade.




Encerrado em 1938, mas não desactivado, ali decorreram depois inúmeros eventos e jogos florais, até que em Fevereiro de 1954, e depois de muitos avanços e recuos, a Câmara o adquiriu por 800 contos (hoje 4000 euros), voltando a registar alguma pujança, com bailes e festas de Carnaval, nalgumas das quais participaram Simone de Oliveira, Maria José Valério e outros populares artistas da época.

Adaptado para repartição de Finanças e Registo Civil, durante alguns anos, tendo aí acolhido igualmente a Escola Preparatória D.Fernando II, a partir de 1996 o edifício registou um novo fôlego e foi recuperado pelo arquitecto João Paciência para alojar o Centro de Arte Moderna, sendo na altura celebrado um protocolo que permitiu albergar parte da colecção do empresário Joe Berardo.



Inaugurado a 17 de Maio de 1997, durou pois enquanto o comendador ali manteve parte do seu espólio, que retirou definitivamente em 2011, tendo as instalações desde então ficado subutilizadas, acolhendo apenas as exposições do World Press Cartoon.

Rebaptizado agora como Casino de Sintra- designação tradicional que os sintrenses nunca deixaram cair- nele se prevêem novos usos, sob a égide da SintraQuorum, prometendo-se a partir de Novembro uma programação regular de eventos culturais, com destaque para exposições. O primeiro evento, a exposição "DIIS MANIBVS-Rituais da Morte durante a Romanidade", do Museu Arqueológico de Odrinhas, apresentará materiais provindos de escavações no território de Sintra, e para o início de 2013 está já prevista uma exposição relativa ao Ano do Brasil em Portugal. Exposições temporárias internacionais de ‘primeira linha’ e congressos de grande dimensão, que até ao momento, não têm qualquer espaço no município que os possa acolher, estão na mira da SintraQuorum, que aponta as vantagens competitivas de Sintra para tal opção. 
A revitalização cultural de Sintra passa pela criação de sinergias e parcerias entre os agentes culturais dispersos, apostando num conceito de cidade criativa e aprofundando a conjugação de 3 linhas de força, a que Richard Florida no seu livro The Rise of the Creative Class chamou os 3 T:Talento,Tolerância e Tecnologia. Mas para quem começa por baixo, os passos a dar passam não pela proliferação de eventos culturais importados de fora, mas antes de mais e a fim de promover um espírito grupal, pela partilha e disponibilização de espaços como este para serem utilizados também como centros de criatividade, encontro e troca de informações, como os ingleses fizeram com os Fab Labs, pequenas fábricas, ateliers e estúdios onde se possam instalar associações e pequenas empresas, fomentando assim uma economia criativa, com equipamento digital base, maquinas de impressão, equipamento gráfico, nas mais diversas áreas e onde possa ser promovida a troca de informação. Este conceito catapultou já cidades antes adormecidas para novos paradigmas, como Sheffield, em Inglaterra, ou Helsínquia, com o seu Design Distrit. Em Amesterdão, o envolvimento de 9% da população em actividades e indústrias criativas ajudou ao crescimento do emprego, na Suécia, a instalação de uma escola de artes circenses em Botkyrka, a 20 km de Estocolmo originou um centro de criatividade chamado Subtopia, e estes são exemplos virtuosos que poderiam e deveriam ser seguidos.

Chamar quem trabalha na ciência, arquitectura, design, moda, música, tecnologias e potenciar sinergias é o desafio que um espaço privilegiado como o “novo” Casino de Sintra poderia agarrar. Pegue-se igualmente no Sintra-Cinema, por exemplo, ou em algumas instalações industriais encerradas, e com um mínimo de condições de funcionamento, nada de faraónico ou de fachada, junto com o Casino, promova-se a junção e promoção dos criadores e criativos. A Cultura também contribui para o PNB e com relevo, como um recente estudo de Augusto Mateus o demonstrou. Sintra Criativa, pegando em modelos já estão testados, essa sim, pode ser uma Marca vencedora, apostando numa verdadeira Economia da Cultura e num território onde existem condições naturais, população jovem e factores de localização que podem gerar efeitos multiplicadores. Uma forma também de sair da crise.

Cabe ao sector financeiro igualmente apoiar nesse âmbito empresas startups de índole cultural, a quem as firmas gestoras de fundos de capital podem ajudar com conhecimentos de gestão, acesso a redes de negócios e ajuda à obtenção de competências no posicionamento estratégico para a venda de produtores criativos inovadores e atracção de colaboradores. Tais clusters e tais apoios são essenciais para estancar a fuga de cérebros,  e só um ambiente de empreendedorismo pode reverter.

Deixa-se assim a sugestão de que, saudando a nova vida do Casino de Sintra, este, além de espaço expositivo tout court, possa igualmente interagir com a comunidade criativa, potenciando junto desse nicho as vantagens competitivas locais, para uma cultura viva e actuante, que chame ao exercício e fruição críticas e não opte meramente por uma visão contemplativa dos espaços.
Fernando Morais Gomes

Em Defesa das Nozes Douradas de Galamares


Sintra e a Penha Longa foram palco no ano passado do lançamento da Confraria dos Sabores de Sintra, uma iniciativa que tem como objectivo valorizar, defender e promover o diversificado património gastronómico do concelho.Tal confraria, associação sem fins lucrativos constituída no dia 22 de Dezembro de 2010, partiu da vontade de um grupo de pessoas ligadas a Sintra que pretendem fomentar os costumes e tradições da região, tendo em comum a admiração pelos seus produtos gastronómicos, pela sua cultura e história, e a ela aderiram muitos produtores locais dos mais emblemáticos produtos de Sintra: as queijadas, os travesseiros, os fofos de Belas, o vinho Ramisco, a maçã reineta, o pêssego de Colares, ou o leitão de Negrais.
Um reparo, porém: e as nozes douradas de Galamares, doce em extinção e já premiado no estrangeiro?
É certo que a venda directa durante anos promovida pela desaparecida Casa das Nozes Douradas acabou, mas ainda hoje muitos visitantes procuram a casa, e sobretudo as nozes,e é sabido estarem vivas algumas pessoas conhecedoras do "segredo" e que ainda as confeccionam, sobretudo para particulares. Sugere-se à Confraria dos Sabores de Sintra que diligencie para a inclusão das Nozes Douradas no património gastronómico nela representado, e que, junto com a Câmara, a Junta de Freguesia e o comércio local, procure espaços onde essa e as demais iguarias e produtos representados possam com facilidade ser adquiridos, em feiras, mostras ou espaços permanentes, assim os divulgando e tentando viabilizar economicamente, como marca de Sintra, e da sua especificidade.

 

Discutir o património em noite de Halloween

No dia 31 de Outubro de 2012 a Alagamares promoveu  no Café Saudade uma leitura encenada do texto-roteiro "Casas-Fantasmas", da autoria do encenador e autor sintrense Nuno Vicente, originalmente escrito para um circuito nocturno.




Nessa noite, pertencente às bruxas, deram-se a conhecer estes textos inéditos, escritos em torno de quatro casas, algumas  assombradas pela incúria, e chagas na nossa paisagem: a Quinta dos Lagos, o Casal de S.Roque, a Casa Angêla e a Gandarinha. As leituras deram o mote para um debate sobre defesa do património em Sintra, tendo sido enfatizado o facto de em tempos de crise esta causa se tornar mais premente ainda, pelo que comporta de aumento da autoestima e manutenção da memória e de “sentimento do nós”. As leituras estiveram a cargo das actrizes Carla Dias e Susana C. Gaspar.