sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A obra de Liberto Cruz, por Helena Langrouva

 
Para além da sua obra como ensaísta, crítico literário, tradutor, coordenador de publicações de obras literárias, Liberto Cruz publicou seis livros de poemas – Momento, Névoa ou Sintaxe, Itinerário, Distância, Caderno de Encargos e Sequências; dois poemas longos em forma de pequeno livro – A Tua Palavra e Ciclo –; uma Gramática Histórica, próxima da poesia experimental, um diário de guerra em brevíssimos versos- Jornal de Campanha. A sua poesia figura em inúmeras antologias.



Proponho, como leitora da sua poesia completa, apresentar algumas achegas sobre o seu itinerário poético, numa primeira abordagem de conjunto da sua obra poética, que está por fazer. Uma tentativa de a um tempo apresentar a sua obra poética e nela encontrar um itinerário que realmente existe.
Liberto Cruz só publicou mais depressa os primeiros livros, antes de partir para a guerra de Angola. Os restantes, foi escrevendo e publicando em datas por vezes distanciadas das datas em que foram escritas. É no encadeamento da sua escrita poética que me detenho, a qual não coincide, por vezes, com a sequência cronológica da sua data de publicação. Porque a sua obra poética tem uma coerência e uma lógica interna bem ancoradas no itinerário da sua própria vida.
Depois de a ler, reler e nela reflectir, discerni precisamente sete etapas, um número perfeito para mais de 50 anos de publicação de poesia. Farei uma breve síntese sobre o conteúdo e expressão da sua poesia nessas sete etapas, incluindo citações de versos ou poemas que me parecem pertinentes para a apresentação geral da sua obra poética. Na parte final, tentarei fazer uma síntese do seu caminho global com a poesia.

1.     Antes da guerra colonial: Momento (edição de Autor, Sintra, 1956), A tua Palavra (edição de Autor, Sintra, 1958), Névoa ou Sintaxe (edição de Autor, Sintra, 1959), Itinerário ( Pedras Brancas, Livraria Nacional, Covilhã, 1962)

MOMENTO
Desde os primeiros vinte e oito poemas que publicou aos vinte e um anos no livro Momento (1956), Liberto Cruz manifestou uma rara sensibilidade à beleza, à vida, ao amor de sua mãe, à experiência amorosa, ao desejo de aventura, à expressão da esperança, a par de uma tendência meditativa, expressa em linguagem despojada, sem excesso de metáforas e sem a preocupação da construção perfeita, embora já com a tendência para exprimir o essencial da sua vivência interiorizada. Nela transparece a sua leitura de Fernando Pessoa.
O poema de abertura, Momento, é a expressão jovem da procura do momento de beleza, na serrania, no brotar da água, no caminhar sem pressa a que chama “rotina”- mas que se desenvolverá ao longo da sua obra poética como um caminho de procura de sabedoria- o momento de beleza da perfeição cíclica da natureza, o momento da dor de nascer, deixando margem para a dúvida sobre a permanência da beleza e a quase certeza da dor, do negativo da vida humana.
No Poema sem título nem dedicatória, emerge o desafio para a aventura da viagem sem nome e a esperança de um dia partir, desafio e partida que se realizará ao longo de muitos anos da sua vida. Por que não referir o poema deste seu primeiro livro em que regista o dia em que a comunidade sintrense o reconheceu como menino poeta, pela sua sensibilidade inesperada à morte de uma lagartixa que, como “outros meninos” matara? E por que não deixarmo-nos surpreender pela sua expressão tão jovem de um tema tão antigo como o do amor e o tempo?
( “O amor e o tempo”, p.38)
Dantes,
Um sorriso teu
Era motivo
Para um poema.
Agora,
-o Outono chegou –
pensar em ti
é varrer da alma,
as pardas folhas
que o tempo,
- o forte tempo-
há muito já secou.

A TUA  PALAVRA
Em A Tua Palavra (Natal de 1958), Liberto Cruz surpreende-nos com um único poema religioso, porque relacionado com a religião cristã, porque lamenta o facto de já não haver lugar para a palavra de Cristo – não nomeado mas apenas entrevisto, através de alusões dedutíveis do contexto religioso cristão e dos evangelhos - nem há lugar para a sua face, para a meditação nos seus serenos passos, nos seus milagres, para o efeito da sua palavra que cura. Este poema elegíaco marca uma tendência da poesia de Liberto Cruz para a expressão de aspiração a uma certa religiosidade profunda, de um religação ao sagrado ou à vivência mística que, neste poema, acaba por ser não veiculada pela figura de Jesus Cristo, da qual o mundo está cada vez mais afastado. Resta a esperança que apareça “um rosto novo”, a esperança talvez de uma nova era com outro rosto de religiosidade. Liberto Cruz assim escrevia aos 23 anos, num contexto ocidental judaico-cristão e português de quem procura algo que lhe dê uma referência vivível da experiência religiosa que, nos finais dos anos 50 lhe parecia desacreditada.
A tua palavra…
Aqui, entre  onda e  pedra, vento e fogo
Já não há lugar para a tua palavra
…………………………………..
e entre onda e pedra, vento e fogo
esperamos que a madrugada
na sua mais próxima palavra
um rosto novo nos cante
(fim do poema “A tua Palavra”
        
      NÉVOA  OU  SINTAXE       
No ano seguinte (1959) publica Névoa ou Sintaxe. O segundo poema deste livro introduz-nos num universo de quem procura a paz interior, a aventura da vida, “ na secreta angústia, serena..”
Na paz súbita do canto
Me surpreendo
Em manso aviso
E, insone, embarco
Na jangada incerta.

Não isentas, as veias sabem
E em silêncio depõem,
De coragem, rios.
E a calma é tão fecunda
Que adolescente, parto.

Na secreta angústia,
Serena, a memória me confina
E válido, num grito me anuncio.
( “Na paz súbita do canto”, p. 11)

Antes deste poema, a dedicatória prolongada à sua amada e antes do corpo principal deste livro, “Poema maldito: as exclamações, interrogações e algumas afirmações sobre a incompreensibilidade da guerra, da violência encadeada que não se sabe onde começa nem onde acaba.
Nos primeiros dois pequenos ciclos de poemas deste livro – “Dádiva”, “Estela de Três Pontas” - predomina a sua deslumbrada e enraizada relação com o feminino matricial, na relação com a sua mãe que se funde na relação com a terra-mãe, não nomeada mas aludida. A poesia de Liberto Cruz é da poesia ao longo de cujo percurso mais encontrei a expressão de felicidade, de ligação afectiva ao feminino, a um ser humano, a sua mãe, a sua mulher, a um espaço físico de origem. Para além desse espaço, a consciência do vazio, da ignorância, da infância infeliz das crianças que brincam aos mortos, a ausência de voz, a sensação de se estar parado, inerte, bloqueado, no quotidiano dos anos 50:
 Onde está  nossa prenhe e sibilante voz?
              ……………………………
Que infância é esta,
onde brincamos aos mortos
e aprendemos de cor
as formas legais da contingência?
Que brisa venal, que velada voz
Nos empurra para o abismo da inércia?
…………………………………..
(poema 2 de “Estela de Três Pontas”, p.26)

É notória a procura de vida, do sabor da vida, - pelo recurso a frequentes metáforas da “seiva”, “vinho”, “húmus”, “semente”-, a festa da vida e do vinho (poema “Brinde a Baco”, p.32), à procura do divino e do amor divino fundido na relação amorosa, a consciência da inevitabilidade da morte, a procura de libertação do opressivo, a procura de renovação e de esperança.
Neste sentido, poderíamos dizer que a melancolia que também neste livro se anuncia não é fruto de uma infelicidade de ausência de amor matricial, mas a da consciência da vida opressiva que se vive, a consciência da brevidade e da caducidade da vida, da inevitabilidade da morte, que Liberto Cruz começa a exprimir na sua poesia, desde muito jovem.
Nos “Três poemas de Lamentação” que se seguem, neste livro, surpreende-nos  não só a expressão da consciência da imobilidade, da frustração e da violência da comunidade, mas também a certeza de que os anjos, como metáfora do espírito criador e do sopro de vida não regressam e se vive na ignorância e na ausência de liberdade:

Estamos sós e calmos,
Embrulhados de vento entre salgueiros.

E como são mansos todos os dias,
Tão beatos de ignorância,
Tão estrangeiros de liberdade!
(“Três poemas de Lamentação”, p. 39)

Nessa ambiente de recusa de sopro de espírito e de impregnação de violência - “ o necessário vento recusado” em que “os dedos sabem o sangue” (p.42), de deserto sem água nem uma árvore – “.. existe um lago e nos deram acácias/ e constantes nos perdemos no saibro/ sem um fluído, sem uma árvore” (p.42, ibidem), a esperança de que  a poesia possa vivificar a alma do poeta, cuja palavra se anuncia como “química poética dos sons”:
Este é um dos livros de Liberto Cruz que privilegia a tomada de consciência da infelicidade, do sufoco da voz e da liberdade, do impedimento e da petrificação, da crucificação e do sofrimento inútil metaforizado na alusão à crucifixação do Senhor. Este é o livro que apesar de incluir um “Novo poema de esperança” (p.51):
Com o sangue e os óleos que nos separam
Exacta, de novo voltas em lentos passos
termina com “Poema contra a cidade”(p.54) , como metáfora do mundo ou do país em que a vida não tem força nem sentido – “são inúteis todos os rios de resina/ todas as amoras maduras,/ que pisámos bravos,/ no intervalo das estações” - e os seres humanos não podem exprimir-se, não podem terminar seus gestos - lembrando-nos a palavra de Sophia de Mello Breyner “o gesto criador é impedido”:

Aqui na cidade nossos dedos não acabam gestos
E a incauta presença nos suga
O esforçado mel de todos os dias

É um livro que também exprime interrogações sobre a vida, porque nela ainda encontra pouca clareza, porque tem consciência de uma certa obnubilação não do seu olhar mas da “névoa” como metáfora do que não é claro, do que impede a visão e a nitidez na vida. A “sintaxe” será a metáfora da procura de uma certa lógica interna, ou a expressão, pelo reverso, da consciência do que Camões chamava a “desrazão”, a falta de sentido, na vida; será a procura de clareza na palavra poética, no interior do próprio sujeito lírico e sobretudo na vida da comunidade que parece desfeita.
Exprime ainda o amor que procura, vive, reconhece e em que deseja perseverar, que irá desenvolver no livro seguinte - Itinerário. Este livro termina dizendo que, na cidade, como metáfora deste mundo ou deste país, nos anos 50, não há espaço para o amor:

Mas a amada perde-se em florestas de ar puro
E meus dedos não acabam gestos,
Não conseguem a calma da sua presença
(p.54)
.       
ITINERÁRIO
Escrito entre 1959-60 e publicado em 1962, Itinerário tem a ver com a expressão da energia fulcral do feminino com quem comunga o amor que irá desejando. É visível que esse feminino matricial da sua mãe e da sua terra – Sintra- modelou a sua capacidade de se relacionar e de se exprimir na procura de felicidade com a presença da sua amada. O livro chama-se Itinerário porque é dedicado a sua filha Alexandra acabada de nascer, como que formulando um voto para que ela viesse também a percorrer um itinerário na sua vida.
Dividido em três poemas fragmentados: “O Rio”, “Dádiva” e “Viagem exacta”, continua a tomada de consciência sobre a precariedade e o enigma da vida, a procura e a experiência de dádiva do amor que o possa transcender. Neles perpassa a metáfora do rio enigmático e enérgico de vida que nos percorre cuja origem e sentido desconhecemos, cujos barcos desconhecemos, cujas palavras não nos bastam porque vivemos de excessos numa existência incerta e precária:

Somos um rio de palavras
Que não nos bastam
Porque exagerada é a água
Em que navegamos
E incerto e vário
É todo o barro
Em que vivemos
(p.15)

É a dádiva, a certeza e a solidez do amor, no poema “Dádiva, dedicado a sua mulher, que faz brotar o sujeito lírico do rio de incertezas da vida, para a procura da “Viagem exacta”, metáfora da esperança de um novo caminho, aberto pelo amor, num espaço onde se vive o contrário, no impedimento e na imobilidade: já não há “o incêndio de palavras” (p.28), onde “nos cortaram as mãos/ e a catedral da nossa esperança/ agoniza todas as noites, /entre estátuas e estátuas” (p.28):

Todavia é no ressaibo dos líquidos,
Na aresta dos tempos,
Na confusa música dos corpos
Aptos e certos para o amor,
Que esperamos a tua visita
(p.29)

Esta metáfora da “tua visita” é ainda de esperança.
Para o fim de “Viagem exacta”, a procura de uma enigmática face libertadora ou redentora que se procura e se vai encontrando, ao longo do tempo:
A concluir a metáfora da viagem exacta, o envio do seus versos para o alto,
E, tranquilo, lanço meus versos
À transparente noite
Do teu canto
(p.33)

Estes últimos versos lembram o reenvio do final das canções camonianas, da própria estrutura da canção quinhentista, em que aos próprios versos, o sofrimento e a palavra do sujeito lírico é reenviada para o alto (vide Helena Langrouva, A Viagem na Poesia de Camões, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian - FCT, 2006, cap. V).

2. O Diário de guerra: Jornal  de Campanha (escrito em Buela, Luanda e Sintra, entre Maio de 62 e Janeiro de 65), Peregrinação, Cacilhas, 1986

Vimos como “Poema maldito” da colectânea Névoa ou Sintaxe (1959) manifesta a incompreensibilidade da violência encadeada que é a guerra, ao longo da história. Mobilizado para a guerra de Angola, Liberto Cruz redigiu em verso o seu Diário de combatente forçado, a que deu o título de Jornal de Campanha. Trata-se de um livro raro na literatura portuguesa sobre a guerra colonial, em brevíssimas palavras a que Eugénio Lisboa, no prefácio, chama “disparos”. Teve a maior dificuldade em publicá-lo em Portugal antes e depois do 25 de Abril. Só conseguiu publicá-lo, em 1986, numa editora portuguesa radicada na Suíça que depois o difundiu em Portugal. Todavia um júri em Portugal reconheceu o seu grande valor e atribuiu-lhe o Prémio de Poesia Cidade de Lisboa nesse mesmo ano.
A brevidade dos seus versos tem a ver com o facto de ser tão grande a ignomínia e a inutilidade da guerra, a hórrida violência, que não há palavras, apenas o essencial da experiência terrível que lhe atravessa o corpo, a vista, os corpos dos jovens despedaçados, a ânsia de que a guerra acabe. O livro está dividido em duas partes: “Situações” (p. 15-79) e “Posições” (p. 80-118) e termina assim:

 “Uma novidade: a partir de agora alguns pais vão passar a receber no dia 10 de Junho, no Terreiro do Paço, uma medalha em troca dos seus filhos” (p.118)

Vejamos de “Situações”:

Cumpro ordens como quem rouba pão (20)

Num dos versos está subjacente o versículo 4 do Salmo bíblico de exílio do povo judeu, 137 (136), Sobre os rios de Babilónia: “Como cantaremos o cântico do Senhor em terra alheia?”, para exprimir uma forma de exílio forçado e a injustiça da guerra, num país alheio:

Quem sonha no país alheio?
Quem ama na terra alheia? (24)

Já viste um jovem morrer?
Acaso esqueceste o brilho dos seus olhos (27)

“O silêncio é uma arma adormecida” (p.38)

“Lento o tempo vai tecendo a teia do desespero” (41)

“Falecem folhas nas árvores e amigos feitos soldados” (44)

“Nada sei. Nada espero. Sobrevivo.” (50)

 “Inertes vamos rasgando o corpo.
  E quem nos devolve o sangue?” (64)

Retomando o tópico humanista de Armas e Letras, nos séculos XV e XVI, na Europa – como na expressão de Camões: “Numa mão sempre a espada e noutra a pena” - : Liberto Cruz escreve:

“Na mão a arma rápida. No peito a pena encravada”: 
Neste verso, a espada é substituída pela arma moderna e a pena é a pena como sofrimento encravado no peito; é também a pena como metáfora da escrita que poderia aliviar o sofrimento mas que é irrealizável: a pena de escrever também está encravada no seu peito. Não pode escrever de tal modo está trespassado pelo sofrimento e imobilizado pela violência da guerra:
Recorre à expressão das situações de absurdo que a guerra provoca:
“Um tenente-coronel na missa. Um capelão bêbado.
  Um miliciano dando tiros. Um cabo a ler Camilo.
  É a guerra. (p.85)

Este último verso “é a guerra” é uma paródia a uma publicação de Aquilino Ribeiro, de 1912, com este título, em que o autor tem uma posição ambígua sobre a guerra.

“Situação normal” disse o Alferes.
Reparei que um soldado tinha um cinto de orelhas (p. 86)

Perpassa neste livro o sujeito cujo corpo foi atravessado pela guerra que denuncia, desaprova, que foi forçado a experimentá-la. Em 1963 escreveu um poema em prosa sobre a guerra angolana que publicou em Abril de 1964 na Revista Estudos de Castelo Branco, nº 12: chama-se “Discurso claro como o Inverno”, acompanhado de um glossário próprio, de que cito um breve passo, do início.
Chegou o tempo de colocarmos o nosso capacete do vento, de tropeçarmos na erva ou numa pedra e nos deitarmos no chão na companhia das formigas, esperando a tua vinda como quem planta uma árvore ou verifica um astro.
Estamos há tanto tempo instalados no comprido branco do disfarce, neste silêncio de marabunta, que uma liana nos prende a esta morena teia de vidros e espadas, de abutres e sapos, aqui onde sabemos o teu nome, o teu necessário nome
-claro como o Inverno –
que antílopes deslocaram para as matas e dedos de hiena e sangue transformaram no mais súbito dos vulcões.           
Espero que este poema venha a ser publicado em livros futuros.

3.Gramática Histórica, Comércio do Funchal, Funchal, 1971 ( assinada com o pseudónimo de Álvaro Neto)

Liberto Cruz nunca se considerou poeta experimental, no sentido contemporâneo da chamada “poesia experimental, visual, concreta”. São as escritas que dão origem às teorias e não contrário. Liberto Cruz, com o pseudónimo Álvaro Neto, escreveu Gramática Histórica entre 1962 e 1966 e os Cadernos de Poesia Experimental começaram a ser publicados em Portugal, em 1964. Gramática Histórica é um livro fácil de ler, cheio de jogos que ajudam o leitor a separar o trigo do joio. A chamada poesia experimental da época ajudou para a publicação da obra, mas não esteve na sua origem porque a obra já estava feita.
Continuando a tradição portuguesa das cantigas de escárnio e maldizer, Álvaro Neto recorre à ironia, à caricatura, à paródia da normatividade dos manuais escolares, em particular da gramática da língua portuguesa para criticar o quotidiano português. Teve dificuldade na sua publicação e a obra esgotou-se em muito pouco tempo, num circuito restrito de destinatários interessados. Acaba de ser reeditada, em Lisboa (Álvaro Neto, Gramática Histórica revista e aumentada, com Prefácio de Haroldo de Campos e João Fernandes, Lisboa, Roma Editora, 2007).Além da ironia e da caricatura, recorre a uma análise muito subtil de fonética, morfologia, sintaxe, semântica e versificação que possibilitam a construção de textos de uma falsa exemplaridade que põe em causa. A Gramática Histórica de Álvaro Neto revisita categorias da gramática normativa tradicional que veiculava a ideologia dominante. A poesia experimental, em Portugal foi uma das tentativas de superar o isolamento, o atraso cultural e a ausência de discussão estética, na década de 60. Escrita entre 1962 e 1966 - quase a par do Jornal de Campanha - e publicada em 1971, foi prefaciada por Haroldo de Campos, conhecido autor de poesia concreta brasileira (falecido) que a considera “uma contribuição positiva, no âmbito da nova literatura portuguesa, para a aventura textual da poesia, hoje”. Nela se encontram inúmeros cruzamentos de sentido através de palavras que criticam o quotidiano e que exemplificam categorias gramaticais de que escolhemos algumas:
VERBOS  REFLEXOS
TODOS  NOS QUEIXAMOS
PERIFRÁSTICOS
Vamos pôr toda a esperança no futuro do país
PALAVRAS DIVERGENTES
Tirania
Paz
Alegria
Miséria
Trabalho
Dor
Esperança
Sangue
Liberdade
Escravatura
Povo
Prisão

PLEBEISMOS  VULGARES
Um gajo sem cunhas pediu uma Bolsa.
Nicles, claro!
Dizem que ficou com uma grande cachola.
Que artolas!
        
ARCAISMOS
Casou por amor
O patrão aumentou-lhe o ordenado

Deixamos ao leitor a procura de inúmeras surpresas que o ajudarão a avançar no espírito crítico, no seu verdadeiro sentido, ou seja ou de saber discernir – Criticar não é condenar, é discernir, é ajudar a discernir, ajudar a saber distinguir, a separar o trigo do joio: trabalho de uma vida inteira. É esse sentido original que falta repor à palavra criticar, mas que não falta na crítica subtil de Liberto Cruz. Na segunda e última edição revista e aumentada da Gramática Histórica, Liberto Cruz inseriu textos que então não poderiam ser editados e outros que através das categorias de uma gramática normativa continuarão a ajudar o leitor a descobrir (cito o Prefácio de João Fernandes) “ os contrasensos de um senso comum imposto como bom senso dominante”

4. Poesia e exílio: Distância ( poema escrito em Rennes, Bretanha, entre Dezembro de 1967 e 20 de Abril de 1974), Perspectivas e Realidades, Lisboa, 1976

O longo poema fragmentado Distância marca uma viragem na poesia lírica de Liberto Cruz. O início da escrita deste poema dista cerca de sete anos da conclusão da escrita de Itinerário (1960) que como vimos, é um itinerário fulcral da energia e do enigma da vida, ao amor e à procura de um caminho, da “viagem exacta” que culmina com o reenvio, em movimento ascendente, dos seus versos para a “noite do teu canto”. A poesia lírica de Liberto Cruz ficou em suspenso, depois deste movimento ascendente ou anabático porque foi a guerra que ele teve de atravessar, de que nos deixou Jornal de Campanha e a consciência cívica que construiu na Gramática Histórica que ocuparam a seu trabalho poético, de 1962 a 1966. Disciplinadamente retomou a escrita mais pessoal e lírica no ano seguinte, em 1967, para demorar sete anos a construir este poema composto por pequenos poemas de versos breves em que se nota um progressivo processo de dissecação das palavras. É um poema construído com o tempo, longe de Portugal e de Angola. Por isso lhe chamou Distância. É um poema marcado pela contenção da palavra, a procura da palavra essencial, já não em forma de disparo, como comentava Eugénio Lisboa, a propósito de Jornal de Campanha, mas um outro modo de viver e sobreviver à experiência de exílio não forçado mas voluntário de Portugal, em França, que prolongou durante vinte e dois anos, nas funções que assumiu na Universidade de Rennes e na Embaixada de Portugal, em Paris. Numa entrevista que deu ao Público, em 1994, disse que não tem pressa de publicar a sua poesia, que não acredita na inspiração para a escrita poética, mas no labor, na transpiração, considerando-se também um estrangeirado.
No poema Distância, Liberto Cruz entrecruza o amor, o enigma e o quotidiano de um modo novo e muito menos acessível que nos primeiros livros, sem ser hermético. É como que o seu respirar ou transpirar em terra alheia, na companhia de quem ama, mas onde não sente eco de si próprio. A expressão desse Outro vai-lhe pesando pouco a pouco, segundo se pode deduzir, embora não esteja explícito, porque, no centro do poema, o regresso a Sintra, também não explícito, marca uma viragem determinante no conjunto do poema. Para retomar a intranquilidade em terra alheia, a experiência de tolerar o “solo alheio”, e o chamamento profundo da Pátria, exprimindo o suporte da língua materna nas repugnâncias, no pranto, nos pormenores do quotidiano no estrangeiro; a presença e a inevitabilidade da morte, num espaço de outrem que pode tornar-se quase uma prisão, onde tem de se trabalhar, até quase se ficar espartilhado pelo exílio. A ponto de a saudade ser tentacular como um polvo e o exílio, expresso na metáfora “babilónias”, poder ser conducente à loucura – “destruindo a razão”- e o sujeito exilado se enterrar vivo, à procura de uma redenção (“Messias secreto”). Esta poderá ser uma voz colectiva do exílio:
Só no último verso do final do poema aparece a palavra exílio, relacionado com a memória, a palavra, a escrita dos afectos de quem está distante:
Sôfrega a memória
Brilha. Fogo lento
A palavra
Crepita.

O país define-se
Prática ilícita de
Um critério. Imagem
Empírica.

Objecto solto,
Afectuosa escrita,
Coincidente apelo,

A voz elimina
O discurso. Digo país
Escrevo exílio

5. Ante-pausa: Ciclo, Oficina da Fénix, Porto, 1982 ( para comemorar os 25 anos da publicação de Momento)

Antes de se debruçar sobre o balanço da sua vida e da sua escrita, Liberto Cruz faz uma pausa a que chamo ante-pausa, porque a pausa verdadeira é a que se aproxima. Compõe um pequeno poema fragmentado em dez pequenos poemas que abrem com o regresso à “terra vasta da infância”, o retrato e a memória dos pais, os sonhos, o rio, a ordem, o medo, a memória da adolescência:
Continua a travessia da experiência do amor e sua fusão com a natureza, como nos livros de juventude, com uma expressão muito despojada, para concluir sobre o ciclo do corpo, o fogo que tudo devora, o ciclo da terra, a efemeridade do que se harmoniza no mundo, o “provisório concerto”:

6. Balanço da sua vida e obra e regresso às origens: Caderno de Encargos ( escrito em Paris e Sintra entre 1984 e 1990), Colibri, Lisboa, 1994

É no seu livro Caderno de Encargos que o poeta faz uma pausa para fazer o  balanço da sua vida e da sua obra. Trata-se de uma colectânea em que escolheu a forma do soneto como modo de continuar a disciplinar-se na expressão contida mas com uma componente muito mais elaborada que nos livros anteriores por ter como estrutura o soneto que até então não escrevera. Caderno de Encargos é uma obra de maturidade de vida e de vivência poética, marcada pela síntese, a questionação sobre a vida e a morte, a contenção, a diversidade e unidade de temas, a disciplina e a depuração estética de sessenta e seis sonetos de redondilha maior, exigindo do leitor experiência, vivência e maturidade. Parafraseando Camões, conforme a vida, o amor, que tivermos, assim teremos o “entendimento” destes belíssimos versos. O autor faz o balanço da sua vivência poética e existencial, das experiências do amor, a intuição e a certeza da morte, a tristeza, o deserto e os limites da vida, o envelhecimento do seu corpo, o afastamento de Portugal pela guerra de Angola, o exílio, o refúgio da memória, a atitude de quem se interroga, sofre, acabando por aceitar com sabedoria “ as coisas que são o que são” (soneto 64, p.76), a inquietação da brevidade da vida (soneto 21, p. 33), a força e construção da escrita (sonetos 34,43,37,55), a viagem final “da terra misteriosa para a terra do mistério”, (soneto 66, p.78). Não esconde o humor discreto (son.54),- “sabemos só navegar” - a encenação e teatro da vida (soneto 61, p.73), escolhendo a imagem do peixe que se movimenta no aquário, como “um modelo transparente e só de estar na vida (soneto 62, p. 74), o que corresponde a um dos seus modos de conter a vivência existencial e poética. Caderno de Encargos é um livro de um homem solitário, de meia-idade (p.22 e 77), cuja epígrafe é de Alberto Caeiro:

 Ser poeta não é ambição minha
 É a minha maneira de estar sozinho

 Eis alguns sonetos - chave:

Dia a dia anotando
Vou da vida os encargos.
Da viagem já passada
Ou perdida o balanço

Faço. E por ele corro
O tempo recuperando.
Só em seres e haveres
Me perco. Quem se inventa

Nunca seu mundo repete.
Entre o provável e o certo
O erro vejo dos dados

O lance das coisas sigo.
Quem cedo o sono perde
O real tarde alcança?
        (Soneto 10 , p. 22)

Liberto Cruz tem consciência de que a criatividade renova o sabor da vida – “quem se inventa/nunca seu mundo repete” (soneto 10, p. 22).
O movimento para fora da pátria é expresso já não com uma certa angústia do longo poema Distância de que atrás falámos, mas de quem já superou o exílio e o encara com abertura, adaptabilidade, confiança de vencer e até de prolongar 
Quem da pátria desanda
Parte só para vencer
……….
E se acaso não volta
Todavia sempre longe
Sua Pátria prolonga”
(soneto 17, p. 29)

Para o poeta, a nossa pátria é também o espaço interior que sempre se procura, o que está por fazer, a inventar, não o espaço imóvel:
A nossa pátria é
Por dentro de cada um
Sem limites nem fronteiras

Falas ou religiões.
A nossa Pátria é
espaço a inventar
(soneto 26, p. 38)

O espaço de reencontro com o local onde se nasce e se vai morrer é um dos fulcros deste livro:
         Voltamos sempre ao crime
         Do local onde nascemos
………………………………………
         Rápidos ali morremos
                           (soneto 60, p.72)
        
Como sintrense modelado pela beleza e o mistério de Sintra, Liberto Cruz  concentra em alguns sonetos o seu regresso às origens e à casa paterna (son. 22, p. 34), à Serra de Sintra – a “montanha divina”  (soneto 20, p. 32), ao rio da sua infância (soneto 39, p. 51), à atitude meditativa que a sua companheira árvore lhe inspira (son. 48, p.60)

São longarinas de vento
Na montanha estendidas.
É dos pinheiros o cheiro
E das flores é a cor.

Uma ave que desliza
O silêncio que passa.
Água fugindo viva
Por entre pedras e ervas.

É do mundo o começo
Aqui ou aqui termina?
São estes sinais dum deus

Ou o deus derradeiro?
Entre a vida e a morte
É a montanha divina
      (Soneto 20, p.32)

Aqui havia um rio
O rio da minha infância.
Dele parti para longas
Viagens e longas terras.

Aqui havia um rio:
Um rio inominado
De névoa e mistérios
O rio da minha infância.

Aqui havia a minha
Infância e um rio
E deles parti há muito.

A eles regresso agora:
Quem poluiu o meu rio
Quem usou a minha infância?
                   (Soneto 39, p. 51)


Na luz branda do caminho
Não dorme nem me vigia.
Mas quando a vejo sei:
A sua vista me basta.

Avanço e olho. Ando
Sem que nada me desvie
E desde que a noite chega
Tenho sonhos exaltantes.

Não sei sequer o seu nome
Mas em memória tenho
O seu perfil de rainha.

Nem vale a pena saber:
Esse inominado ser
É a companheira árvore
          (Soneto 48, p. 60)

O retorno a esse espaço não é de quem dele se afastou voluntariamente:
Não sendo um filho pródigo
Volto à casa paterna
E com saudades chego
como quando parti
 (Soneto 22, p. 34)

mas a renovação de um afecto que perdurou, apenas inexoravelmente alterado pela morte da mãe:
Nada mudou. Faltas tu
Mãe e de repente tudo
Foge já nada existe
   (Soneto 22, p. 34)

O regresso à serra de Sintra, ao seu silêncio, agudiza a consciência da sua própria identidade, embora evoluída no tempo que simultaneamente o torna “outro” no seu ser, no seu modo de olhar a paisagem, na mudança do seu próprio corpo, numa atitude de um certo estoicismo, pela aceitação da mudança para essa outra forma de estar perante a paisagem:

À serra volto ainda
No silêncio das pedras
Me vejo então um outro
mas o mesmo sendo
…………………………
Outra forma de estar
perante a mesma paisagem
aceito. E facilmente

O mesmo sinto um outro
Na viagem do meu corpo
As pedras a serra vendo
          (Soneto 18, p. 30)

O seu corpo a envelhecer parece renovar-se correndo “em redor do velho corpo/ da serra adormecida”, o qual se transforma pela magia de “duendes e fantasmas”, “camélias…túlipas”… “de rosa e buganvílias/ agapantos araucárias” (soneto 38, p. 50). Essa magia torna-se interactiva e rejuvenesce a própria serra, suscitando saudade em ambos – no sujeito lírico e na serra por ele animizada:

Em redor do jovem corpo
Da jovem serra de Sintra
De novo corro. Antigo

Agora o corpo meu
De saudades um rio
Em mim e na serra corre
        (Soneto 38, p. 50)

É a expressão da nostalgia comungada da juventude do sujeito lírico do poema e da paisagem da sua infância como se a serra fosse sempre renovada, no seu corpo, por seres mágicos, flores e árvores. A serra de Sintra é ainda contemplada nas suas cores, aves, silêncio, pedras, ervas, para acompanhar o mistério da presença da vida e da morte, identificáveis com “sinais de um deus”. O divino manifesta-se na própria identidade e beleza da serra, como companhia da vida e da morte:
Entre a vida e a morte
É a montanha divina
(soneto 20, p. 32)

Eis um dos mais belos livros que se escreveram sobre a viagem da vida que é a de todos nós, escrita por um autor sintrense, em modos e espaços diferentes, no regresso às origens, a Sintra, à nossa – porque cá nascemos e cá vivemos – “montanha divina”.

7. Sequências, Livros Horizonte, 2000 - poemas breves ilustrados com colagens de Maria Gabriel; Construir, inédito, escrito em Paris em 1978 e revisto em 1993

A obra poética de Liberto Cruz culmina com o livro Sequências,  a expressão de imagens, ideias e pensamentos muito breves em  poemas de pouco mais de dois versos, à procura do que poderíamos chamar o essencial do mistério da vida e do espírito, já liberto da caducidade do corpo. Alguns poetas contemporâneos tentaram retomar o que chamam haikai mas que raramente o são porque os haikai japoneses tinham muitos códigos difíceis de seguir na cultura ocidental. Outros poetas portugueses, como Casimiro de Brito, têm o fascínio da escrita em poemas muito breves em que retomam livremente essa tradição, sem poderem respeitar os respectivos códigos. No caso de Liberto Cruz, a sua escrita destes poemas breves flui como um rio de palavras todas filtradas pela sua vivência, a sua meditação, a sua aceitação dos limites do visível e da possibilidade do ascenso do espírito, para além da caducidade do corpo. Esta escrita de síntese, sobre o essencial, corresponde ao seu modo de ser poético. Se a sua poesia anterior e muito em especial Caderno de Encargos exprime a procura de serenidade interior e de sabedoria de viver que tão bem se harmoniza com a sua personalidade, como pessoa e como poeta, Sequências será uma colheita de frutos de sabedoria, de contemplação da vida e do mundo visto de cima, de maneira sábia e distanciada. Pela sua leveza, visualidade e profundidade foi possível que este último livro de Liberto Cruz fosse ilustrado com colagens de Maria Gabriel, escolhidas pelo autor:

Viver a vida
É esquecer a morte

Espero a amada
As estrelítzias
Fazem-me companhia

Como obra inédita, lemos Construir, um conjunto de poemas escritos em Paris em 1978 e revistos em 1993, sobre a arte poética como labor e esforço de construção arquitectónica, a metáfora de todos os materiais de construção que o erguer de um edifício envolve. Não se trata de um livro técnico, mas de uma meditação poética sobre o essencial do ofício de escrever. É também uma homenagem ao poeta  Blaise Cendrars, cuja obra  Liberto Cruz tem seleccionado e traduzido: terá sido a última palavra pronunciada por Cendrars antes de morrer: “Construire”.

Síntese aberta
Se lermos ou relermos a Conta-Corrente de Vergílio Ferreira (I, 3ª edição, p. 345), encontraremos as visitas de Liberto Cruz à casa de Vergílio Ferreira, em Fontanelas. É espantoso que um romancista tão profundo tenha tido a humildade de confessar a Liberto Cruz que não entendia alguma da sua poesia, que lhe agradecia que respondesse a perguntas e que o esclarecesse sobre o que pretendia com a sua poesia – a que Liberto Cruz respondeu com todo o gosto. Sigamos a humildade de Vergílio Ferreira. Porque todos podemos ser herméticos, quer autores quer leitores. Depende do conceito de hermético. O que interessa é que caminhemos no diálogo, no trabalho do ofício de ler, se possível no ofício de escrever: são ambos exigentes e vários.
Nas sete etapas que percorremos no itinerário poético de Liberto Cruz, pudemos entrever a sua poesia bem ancorada na vida, um itinerário com o corpo, o amor, a natureza, o sofrimento, a sua não-aceitação da violência nem da guerra, a sua procura de tomada de consciência, de convite ao discernimento, a viagem e o enigma da vida, a inevitabilidade da morte, a nostalgia da própria vivência poética, do exílio, filtrada por uma rara sensibilidade e um modo de ser poético de quem sempre procurou o essencial, na vida e nas palavras, quem procurou o rigor e a música das palavras, o rigor da arquitectura do poema, privilegiando a procura de harmonia, de claridade, de expressão contida, sintética e meditativa, regressando sempre à beleza de Sintra, num caminho de global direcção para o que poderíamos chamar um religiosidade natural de quem procura a paz dentro de si próprio e com outrem, a sabedoria de viver, a aceitação estóica da vida. Esperamos que depois do livro Construir, ainda inédito, esteja em curso uma outra obra poética com o seu ritmo talvez um pouco mais espraiado, continuando o seu caminho de um dos maiores poetas originários de Sintra e um dos melhores poetas da literatura portuguesa da sua geração.

Sintra, 4 de Maio de 2007
A propósito da publicação de Liberto Cruz, Poesia Reunida, Palimage, Coimbra, 2012, que reúne todos os livros mencionados neste itinerário e três longos poemas inéditos, este artigo terá a sua sequência

Sintra, 11 de Junho de 2012
Helena Langrouva
Helena Langrouva é licenciada em Filologia Clássica (Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa), Maître ès Lettres Modernes – Cinéma (Montpellier III- Université Paul Valéry), pós-graduada – DEA ( Universidade de Paris III- La Sorbonne Nouvelle), Master of Arts e Master of Philosophy (Universidade de Londres – King’s College) – e doutorada (Universidade Nova de Lisboa) em Estudos Portugueses. Foi Leitora de Língua e Cultura Portuguesas nas Universidades de Montpellier e Rouen, ensinou Literatura Portuguesa Clássica, Teoria da Literatura, Introdução aos Estudos Literários e Francês, no ensino superior, em Portugal, com passagem pelo ensino secundário onde leccionou Grego, Latim e Português. Equiparada a bolseira pelo Ministério da Educação e Cultura, foi bolseira da Fundação Oriente e da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo investigado em bibliotecas e museus europeus. Escritora, investigadora interdisciplinar, nas áreas da cultura clássica, renascentista e do século XX, tem-se dedicado em especial ao estudo de Literatura e Arte dos séculos XV e XVI.
É autora de A Viagem na Poesia de Camões, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian- FCT, 2006; Actualidade d’Os Lusíadas, Lisboa, Roma Editora - apoio FCT, 2006; De Homero a Sophia. Viagens e Poéticas, Coimbra, Angelus Novus – patrocínio IPLB-, 2004; Arpejos de uma Viandante/ Arpèges, Lisboa, 2003. Co-editou, com Aires A. Nascimento, José V. De Pina Martins e Thomas Earle, Humanismo para o nosso tempo. Homenagem a Luís de Sousa Rebelo, Lisboa, edição patrocinada pela Fundação Calouste Gulbenkian e comercializada pela APPACDM, Braga.
Publicou ensaios nas revistas Brotéria, Critério e O Tempo e o Modo (Lisboa), Traduziu e seleccionou Lanza del Vasto, Não-Violência e Civilização- Antologia, Lisboa, Edições Brotéria, 1978 e traduziu ainda Jean Joubert, O Homem de Areia (romance), Lisboa, Difel, 1991.
Estudou Artes Musicais – Canto Gregoriano e Canto Clássico - Artes Plásticas – Desenho e Pintura- e Iconografia. Tem ainda cultivado o canto ao longo da sua vida, fez exposições individuais de Pintura em Sintra, Lisboa e Évora e dedica-se em particular à pintura de ícones.
É membro da Associação Portuguesa de Escritores, da Associação Portuguesa de Críticos Literários, da Sociedade Portuguesa de Autores, da Associação Internacional de Lusitanista.

Visita temática ao Palácio de Queluz


Um grupo de associados e amigos da Alagamares visitou hoje o Palácio de Queluz, usual sala de visitas do Estado e local por onde passaram já inúmeros dignitários estrangeiros, e a precisar de intervenção ao nível da sua dignidade patrimonial.

Pavilhão de caça do marquês de Castelo Rodrigo no século XVII, edificado por D.Pedro III, e refúgio de D.Maria I depois de enlouquecer, aí nasceu e morreu o rei D.Pedro IV, sendo o século XVIII o seu período áureo. Alvo do fogo por várias vezes, a última das quais em 1934, teve intervenções mais recentes em 2001, quando reabriu a Sala de Música e a Capela, e nos últimos anos ao nível da estatuária dos jardins, tendo em 1999 as obras sido incluídas no Plano Operacional da Cultura, altura em que se beneficiaram a Cascata Grande e a rede de rega, e abastecimento de água aos lagos. Com apoio do World Monuments Fund foi também realizado vasta intervenção ao nível da estatuária e do Canal de Azulejos, recuperação do coberto vegetal, das esculturas em chumbo de John Cheere, tratamento contra a bio-colonização invasiva da pedra de musgos e líquenes, das magnólias e sebes, bem como dos lagos e fontes da autoria de Jean Baptiste Robillion.
Da visita efectuada, que teve enquadramento histórico pelo estudioso de Sintra João Rodil, pôde ser verificado:

-a necessidade de restauro de muitas das portas e janelas, em estado de degradação, sobretudo as viradas a sul;

-a necessidade de restauro de algum mobiliário, que é já pouco, atentos os esbulhos ocorridos durante a invasões francesas e com a partida da Família Real para o Brasil, bem como por ocasião do fogo de 1934;

-o tratamento de muitas das áreas espelhadas, denotando a antiguidade, bem como as "falhas" ao nível dos dourados e madeiramentos podres;

-a necessidade de uma intervenção ao nível da fachada principal(a que dá directamente para os jardins);

-a particular degradação ao nível da Sala dos Embaixadores (tectos) e da sala do Toucador (espelhos e paredes);

-a necessidade de alargar o perímetro de ajardinamento para a zona adjacente à cascata, a precisar de limpeza, e onde as inúmeras laranjeiras, carregadas, carecem de recolha dos frutos.

Ao nível do tratamento museológico, uma palavra para realçar a falta de informação sobre o Palácio (os folhetos disponíveis eram todos sobre os palácios de Sintra), bem como a falta de um serviço de guia-áudio ou mesmo de visitas guiadas em várias línguas. O uso sistemático dos jardins para eventos culturais, à semelhança do ocorrido na década de 90, poderia ser uma forma de revitalizar o espaço, bem como dotá-lo de uma programação regular reforçada.

Tendo passado recentemente para a jurisdição da Parques de Sintra-Monte da Lua, espera-se que o dinamismo revelado por essa empresa noutros locais emblemáticos de Sintra permita devolver o esplendor a um espaço que é sem dúvida um dos exemplares mais visíveis do barroco e do maneirismo em Portugal.
REPORTAGEM NA SALOIA TV EM















 

Relembrando os Meninos da Avó


“A ideia já é antiga. Reunir poetas, actores, leitores, ouvintes. Reunir seres humanos em redor da mais acolhedora das lareiras: a Poesia. Saudosos de outras tertúlias que o tempo consumou e consumiu, sentimos chegada a hora de retomar o hábito de nos desabituarmos da vida em prosa. Ei-nos regressados ao convívio das palavras!”. Assim se apresentava em Dezembro de 2004 um grupo de artistas e poetas de Sintra que durante cerca de 3 anos se reuniu e reuniu a família da poesia em torno da tertúlia Meninos da Avó.


Reunidos informalmente nas primeira e terceira 4ª feiras de cada mês, na desaparecida Casa da Avó, perto do palácio Valenças, onde hoje se encontra um hotel, ali se discutiram ideias, apresentaram livros e soltaram poemas, impulsionados por figuras como Jorge Telles de Menezes, Rui Lopo, Rui Brás e outros. E  muitos foram os cúmplices em torno da lareira literária: António Naud Júnior, Fernando Dias Antunes, Paulo Brito e Abreu, Francisco Palma Dias, Nuno Vicente, Fernando Grade, Helena Langrouva, Miguel Real, Luís Filipe Sarmento, Alexandre Vargas, António Salles, Rui Mário e Pedro Hilário, Manuel Silva Ramos, Filomena Marona Beja, Ricardo Rodrigues, Duarte Braga, Diogo Carvalho, Maria Almira Medina e outros.
Durante 52 sessões e até Dezembro de 2007, Sintra bebeu da palavra dos Meninos e escutou os Mestres, inicialmente nesse mítico espaço, posteriormente demolido para dar lugar a um hotel, e, a partir de 2006, em locais como o Regalo da Gula, na Quinta da Regaleira, no bar 2 ao Quadrado, ou no restaurante Culto da Tasca.
Do espólio desse baú, sagrado e maldito, um poema de Fernando Grade, do seu livro “Sempre tive um vinho muito ciumento"
A maior morte que aconteceu na minha infância
foi Billy the Kid.
Por esse tempo há muito tempo passaram
frutos e pedras e, então, havia aves a descerem
para o mar, havia névoas da cor das uvas
moscatéis e, talvez, a salsugem
e as sestas saboreadas dormidas em cima da caruma
nos Capuchos; era uma altura
em que o teu corpo ainda não me ameaçara
com o mar dos feitiços.
Volto atrás e sou meninos
tenho uma madrinha que era fanática
pela praia da Adraga:
os méis ainda estavam todos vivos,
não havia um verme lustroso
a roer a maçã,
foi numa noite de Verão com vento
que apareceu morto Billy the Kid
apunhalado na minha caixa dos brinquedos.

Agora quando vou aos Capuchos são outros os meus fantasmas:
o teu corpo está à beira do tempo:
os segredos que nos uniram
a mim e à parte fumegante que de ti resta
são como trapos sangrentos;
olho para o retrato da tua boca
como se fosses feita de
Lama,
nuvens que nunca vi.
Mas gostava da maneira como tratavas as plantas:
as plantas são crianças indefesas
que sentem as catástrofes
lambem a neve das estradas.

Vivi uma destas tardes a praia toda
o mar fulo, rebolei-me na areia velha onde cresci alguns verões,
lá estavam os mirones, porventura os filhos dos outros mirones,
o coxo sábio e o maneta,
tudo a cheirar a chuva e a muito sal,
as casas grandes eram sempre neuróticas
ter uma casa enorme aberta às brisas
era como sustentar uma rapariga neurótica.
Bem, havia sombras afugentadas por olhos de
pedra, lábios submersos por maçãs
vinhedos, o sabor bruxo dos pêssegos
a resina a escorrer para o rio de Colares

A praia da Adraga
foi o vinho mais feliz da minha vida.


 

Tertúlia com Sérgio Luís Carvalho- 23/11/2012

  Margarida Pinto, Sérgio Luís Carvalho, Miguel Real e Fernando Morais Gomes

Promoveu a Alagamares no dia 23 de Novembro no Café Saudade, em Sintra, a apresentação do livro de Sérgio Luís Carvalho “O Exílio do Último Liberal”. Sérgio Luís de Carvalho, autor de uma já vasta obra no campo do designado “romance histórico”, que já em 2007 fez parte da organização do III Encontro de História de Sintra promovido pela Alagamares, e por duas ou três vezes participou em sessões literárias por nós promovidas, é um dos escritores contemporâneos mais profícuos, alem de ser um sintrense e em Sintra exercer a sua profissão e nela se ter inspirado para algumas das suas obras, como é o caso de “Anno Domini 1348” (Edição CMS, Prémio Literário Ferreira de Castro 1989), para além de títulos como  “As Horas de Monsaraz” (Campo das Letras, 1997), “El-Rei-Pastor” (Campo das Letras, 2000), “Os Rios da Babilónia” (Campo das Letras, 2003), “Retrato de S. Jerónimo no seu Estúdio” (Campo das Letras, 2006), entre outros, sendo as suas obras mais recentes “O Destino do Capitão Blanc”(Planeta,2009) ou “O Segredo de Barcarrota”, também por nós apresentado no Café Saudade já este ano.

Característica comum a todas as obras é a de aliar o romance com o rigor histórico, por uma questão de seriedade. “Não posso colocar D. Dinis a comer batatas ou D.Fuas Roupinho a falar em “minutos” disse certa vez. Se sobre Sintra foi a sua obra de lançamento, Anno Domini 1348, o ano da mortífera peste que assolou a Vila e nela ceifou vidas, é sobre o antigo alcaide seiscentista de Sintra, André de Albuquerque Ribafria que revelou já vir a gostar de escrever uma obra. Tendo Alexandre Herculano como o pai do romance histórico e também como referência, Sérgio Luís Carvalho é um produtor profícuo, abraçando épocas e contextos históricos dos mais díspares, e para tanto realizando um sério e extenso trabalho de investigação.
Na obra apresentada, O Exílio do Último Liberal, presenteia-nos com um “romance com final feliz” no dizer de Miguel Real, situado na Europa de 1830, quando em Portugal se erguiam forcas e em Inglaterra fábricas, frase que marca o tom da narrativa que nos levará de Lisboa e Coimbra a Londres, e tendo o jovem e rebelde  Sebastião, exilado e assistente do médico inglês William White, como protagonista. Mais uma obra de fôlego que revisita a História de Portugal e consagra um percurso consistente e sedutor, sobretudo para quem gosta do romance histórico, esventrando os primeiros tempos das autópsias legais, na nebulosa Londres, aguardando o dia em que vitoriosos os liberais e posta D.Maria no trono volta a Lisboa para seguir o seu destino.

Sobre a obra, escreveu Miguel Real no Jornal de Letras:

(...)um dos legítimos continuadores de Fernando Campos, João Aguiar e Mário de Carvalho neste género literário, a par com Pedro Almeida Vieira, João Paulo Oliveira e Costa, Júlia Nery, Paulo Moreiras, João Pedro Marques, Paula de Sousa Lima, acaba de publicar um romance com final feliz, O Exílio do Último Liberal.

Tão raros são hoje os “finais felizes” e tão trágico (mesmo distópico) tem sido o modo de representação estética da realidade portuguesa no romance, que é de saudar, por inesperado, um romance com um final feliz. Aliás, um romance com uma belíssima frase inicial e um belíssimo final.

No romance ora publicado, ainda que referido, desapareceu a importância do cão – personagem integrante dos romances de Sérgio Luís de Carvalho desde a década de 90 -, substituído por um gatinho (Yellow), de menor importância na problematização da história (por não ter expressa relação com o universo humano). E desapareceu igualmente a componente do maravilhoso que o autor experimentara – com nítido sucesso – em O Segredo de Barcarrota, estatuindo o Diabo como uma personagem com existência entre a realidade onírica e a realidade física. Com a supressão da componente fantástica, O Exílio do Último Liberal devolve-nos o Sérgio Luís de Carvalho de sempre, um romancista realista, com um forte pé na História, leal a fontes coevas, narrando fidedignamente a atmosfera social da época, criando tanto uma história verosimilhante quanto personagens plausíveis.

Neste sentido, Sérgio Luís de Carvalho assume a autoria da narração de uma história no sentido clássico do termo, inclusive rematando-a com um final feliz. Para trás ficaram os experimentalismos sintácticos dos seus primeiros romances, bem como o valor literário trágico que atribuía tanto às personagens como à própria história. Esperemos pelo futuro, mas por ora é como se o autor tivesse regressado às fontes vivas e permanentes do romance histórico no sentido alexandre-herculiano do termo.

E regressou da melhor maneira. O Exílio do Último Liberal é um genuíno romance histórico clássico, iluminador de um tempo português (guerra civil entre Liberais e Absolutistas no Constitucionalismo Monárquico) e inglês (momento de liberalização das autópsias na Inglaterra), de um espaço português (Coimbra, Porto, Lisboa) e britânico (Londres), dotado de personagens suficientemente representativas de ambos os tempos históricos, com a sua personalidade singular e a sua actividade suficientemente rara ou original para receber destaque num romance.

A frase de abertura é geradora de um autêntico “programa” literário. Sob o seu sentido, poderia o autor escrever três ou quatro romances sintetizadores do estado político das sociedades portuguesa e inglesa ao longo do século XIX: “Naquele ano de 1832 erguiam-se forcas em Portugal e fábricas em Inglaterra” (p. 9). Os tormentos da Guerra Civil, em Portugal, tinham enviado pata o exílio em França e na Inglaterra centenas de militantes liberais, entre os quais Alexandre Herculano e Almeida Garrett. Salvador, estudante de Medicina, povoado de traumas infantis devido à sua origem familiar, exilado em Londres, não participara nas batalhas liberais. Pertencera ao grupo carbonário dos Divodignos (“Dignos de Deus”) que assassinara dois lentes de Coimbra integrantes da comissão da Universidade que vinha a Lisboa saudar o regresso de D. Miguel (pp. 277 ss.). Salvador fora perseguido em todo o país pelos absolutistas. Em Londres é auxiliado pelo capitão Romão José Soares (p. 287), o mesmo que, regressado em triunfo a Lisboa, no dia 24 de Junho (de 1833, nome da avenida marginal ocidental de Lisboa), matará o torcionário absolutista Teles Jordão, director do Forte de São Julião da Barra, cadeia tão asquerosa para os liberais como Caxias para os oposicionistas do Estado Novo. Em Londres, Sebastião tornara-se assistente do médico William White, no Hospital de São Tomás. Pressionado pelas necessidades financeiras, Salvador integra o grupo dos “Ressurrecionistas”, que rouba cadáveres no cemitério de Bloomsbury para os vender aos hospitais, destinados a práticas operatórias. Em Londres, o bairro de Whitechapel e a zona pobre de East End contrastam com os bairros finos de Westminster, Hammersmith, ou Harley Street, onde vive o juiz Black, terror dos médicos que praticam a autópsia (pp. 42 ss.). O juiz Black apaixona-se por Rose, costureira, noiva de Salvador e, segundo palavras do juiz,  “reencarnação” do corpo da sua falecida mulher. Ted Nunn, antigo carvoeiro, pai de Rose, velho, doente, albergado em Shoe Lane, antecâmara da morte para pobres, receia que o seu cadáver seja retalhado pela autópsia, impedindo o seu corpo de se apresentar intacto perante o Senhor e de cumprir “em paz o seu sono derradeiro”. Ted opõe-se à paixão mórbida de Black por Rose e simpatiza com Salvador, abençoando o futuro casamento da filha com este. O médico White aprecia muito positivamente o trabalho de Salvador no hospital. A Câmara dos Comuns legisla sobre a matéria, enviando os cadáveres dos pobres para a mesa da autópsia, livrando desta os dos ricos. Mas – história com final feliz - o corpo de Ted não será retalhado, o mesmo não acontecendo ao corpo do juiz Black. D. Pedro IV vencera o irmão absolutista em Lisboa, D. Maria II vem de França para Portugal assumir o trono, que D. Miguel lhe roubara. Salvador, já médico, amnistiado politicamente, com algum dinheiro, regressa Portugal no navio que transporta D. Maria II. Salvador pode, enfim, confessar a Rose: “Vamos ser muito felizes, Rose” (p. 318).
 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Sintra e suas casas assombradas

No dia 31 de Outubro a Alagamares promove uma leitura encenada do texto-roteiro "Casas-Fantasmas", da autoria do sintrense Nuno Vicente, originalmente escrito para um circuito nocturno.
Nessa noite pertencente às bruxas, daremos a conhecer estes textos inéditos, escritos sobre cinco casas assombradas pela incúria, chagas na paisagem. Após a leitura, seguir-se-á um debate sobre o património em Sintra, servindo como pretexto muitos dos seus edifícios "fantasma" que assombram Sintra pelo abandono e ruína, com oradores convidados, e a participação do público presente.
As leituras estarão a cargo das actrizes Carla Dias e Susana C. Gaspar. O evento decorrerá  pelas 21h30 no Café Saudade.
A título indicativo, deixamos alguns exemplos recolhidos pelo nosso associado Filipe Fiúza, no seu blogue "Sintra entre Ruínas".



domingo, 17 de junho de 2012

Degradação na Peninha


Chegaram até nós queixas sobre o actual estado de desleixo a que se encontra votada a Peninha, através das fotos de Maria Pereira, da Fraternidade Nuno Álvares, que reproduzimos.
                              Porta arrombada e devassada
                                      Algerós danificado
                      Painel informativo sempre alagado
                       Mesas de piquenique danificadas

A quem de Direito, mormente ao Parque Natural Sintra-Cascais, o nosso apelo a que sejam reparadas as deficiências e volte a ser dada vida a esse local aprazível da serra de Sintra.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

E agora S.Pedro?

E agora, S. Pedro? é um projecto de Solidariedade activa e criativa em rede, direccionado para a comunidade de 3ª Idade na área da Junta de Freguesia de S. Pedro de Penaferrim, concebido e desenvolvido pelo Utopia Teatro, Grupo de intervenção criativa “Manta de Retalhos” (Unidade Pastoral de Sintra), Aqui há bicho – grupo de teatro juvenil e Atelier criarte – Mariis Capela e que a Alagamares procurará apoiar dentro das suas possibilidades.
O objectivo estratégico do projecto passa por “reabilitar”, “dinamizar” e “divulgar” as memórias, saberes e tradições dos anciãos da terra relacionando-as com o espaço específico que habitam ou habitaram. A partir dos números e dados da Junta de freguesia, procurar-se-á o caminho de dar foco e rosto – em genuína homenagem – à memória dos que há mais tempo residem e resistem em S. Pedro de Sintra. Assumindo este projecto, a Junta de Freguesia assegura a mobilização e defesa intransigente deste inestimável Património Imaterial que são os seus cidadãos e suas memórias de S. Pedro de Penaferrim, Paisagem Cultural e Património da Humanidade por excelência.
 O  projecto geral articula-se em quatro vertentes e etapas.
  1. Cerca de 20 voluntários e animadores, organizados em sete equipas, entrarão em contacto com o  público-alvo tendo como objectivo a adesão ao projecto e a recolha de testemunhos de um micro-universo de 40 habitantes de S. Pedro com mais de 65 anos – ao longo de dois meses.
  2. A recolha de testemunhos servirá de ponto de partida e matéria-prima para a construção de uma apresentação pública no campo das artes cénicas, de preferência por ocasião dos festejos populares do Padroeiro.
  3. A apresentação pública coincidirá com uma exposição de retratos fotográficos de alguns dos entrevistados. A exposição, de preferência, deverá ocorrer ao ar livre em diversos pontos-chave do centro histórico de S. Pedro, escolhidos, preferencialmente, por sugestão do retratado.
  4. Construção de um “diário de bordo” com toda a documentação do processo criativo do projecto. Recolha escrita, gravada e contextualizada por individualidades idóneas, tendo em vista o seu depósito no Arquivo Histórico de Sintra e eventual edição por iniciativa camarária.
  5. Estas quatro vertentes e etapas englobam uma série de objectivos específicos e estratégias em sucessivas “homenagens” e acções concretas para a motivação/auto-estima do público-alvo, procurando minorar a solidão, reabilitar pontes de comunicação transversais e intergeracionais e promover elos afectivos entre o indivíduo e o espaço em redor, catalisador da sua identidade.
  Primeira Etapa: “A desculpa é a fotografia”
“A desculpa é a fotografia” poderá ser o mote da primeira etapa essencial que obedece a uma questão de fundo: “Como articulam as pessoas as suas memórias e vivências com o espaço que as rodeia?” Surge então a consequente questão prática: “Como obter o consentimento para um testemunho gravado, retratado e homenageado?” Sob o pretexto de um simples visionamento de um álbum de fotografias pretende-se reavivar e estimular a ligação afectiva das memórias, associando determinados marcos na vida de uma pessoa a espaços concretos que ainda hoje existem em S. Pedro.
Assim, todas as narrativas espontâneas que surgirem e que remetam para antigos saberes e tradições estarão subordinadas às fotografias apresentadas e comentadas. Pensar o território para melhor o habitar e defender é objectivo estratégico, aliando o património material de Paisagem Cultural com o património imaterial da população que vive há mais tempo na área de intervenção.
 É, pois, essencial o quadro de voluntários e animadores e toda a acção de formação em articulação com a Junta de Freguesia e todas as outras instituições envolvidas.
O quadro de voluntários e animadores será assegurado, em responsabilidades idênticas, por:
  • Seis elementos do grupo de teatro de Sintra “Aqui há bicho”, com idades compreendidas entre os 17 e os 19 anos, alunos da área de Animação Sociocultural  da Escola Secundária de Santa Maria.
  • 6 elementos do grupo de intervenção criativa “Manta de Retalhos” da UPS, com idades compreendidas entre os 45 e os 70 anos e com experiência nas acções humanitárias da Igreja.
  • 6 elementos da Utopia Teatro, que providenciarão toda a plataforma de ligação entre os intervenientes.
  • Haverá ainda um coordenador e um assistente de produção.
 Encontros, reuniões, ensaios e acções de formação poderão decorrer no Auditório da UPS ou em qualquer outro local sugerido pela Junta de Freguesia.
O quadro de voluntários e animadores será organizado em grelha com as marcações e contactos das pessoas a entrevistar.
Pretende-se a formação de sete equipas com uma média de três “entrevistadores” por equipa, em sistema de rotatividade, isto é, cada equipa e cada “entrevistador” terá uma média de 6 a 7 entrevistas a realizar no espaço de dois meses.
 A “entrevista” não se limitará a uma só visita. Cada pessoa contactada que mostre interesse em qualquer tipo de colaboração com o projecto deverá ser visitada em três distintas ocasiões com o objectivo de quebrar, de parte a parte, desconfianças iniciais e não ser uma só uma intervenção-relâmpago. Surge aqui o mote desta etapa: “A desculpa é a fotografia”.
Os entrevistadores levam consigo, na primeira visita, apena o nome da pessoa que serviu de elo de ligação, importante pormenor para reforçar a confiança, e uma vintena de fotografias – com mais de duas décadas – de locais emblemáticos de S. Pedro.
À segunda visita propõe-se que seja a pessoa entrevistada a divulgar, dos seus álbuns pessoais, algumas fotografias que mostrem o retratado em algum cenário Sampedrino, em algum momento simbólico da sua vida. À despedida é importante auscultar a pessoa no sentido de deixar bem claro se há consentimento para a utilização de fragmentos da conversa recolhida.
A terceira visita funcionará com convite para um primeiro encontro público onde a parte criativa do projecto procurará esclarecer os presentes sobre o modo como pretende construir uma apresentação pública com fragmentos das suas memórias. A terceira visita servirá também para a gravação do seu depoimento. À despedida faltará combinar então a data de visita do fotógrafo e o passeio ao local escolhido para a fotografia, se houver para isso o consentimento, o entusiasmo e a possibilidade.
Finaliza-se assim este processo de solidariedade activa.

 2.2. Segunda Etapa: “A criatividade da Memória em acção”

Inicia-se uma segunda etapa que constitui a vertente criativa do projecto. As “memórias” serão o ponto de partida e a matéria-prima para a construção de uma apresentação pública final por ocasião dos festejos populares do Padroeiro, em homenagem aos entrevistados. Conforme os testemunhos vão sendo partilhados pela equipa criativa inicia-se o processo de ensaios.
Pretende-se uma intervenção transversal e intergeracional no campo das artes cénicas, partindo de uma estrutura teatral de “manta de retalhos”, acumulando sucessivos quadros alusivos às vivências pessoais e colectivas das pessoas da terra e seguindo de perto a metodologia empregada por Bual na sua estratégia de teatro-fórum, segundo o seu modelo de representação teatral e intervenção cívica que é o Teatro do Oprimido procurando conciliá-lo com a tradicional revista à saloia.
Conferir Anexo 1 para mais informações.

 2.3. Terceira Etapa: “Sair à rua para o retrato de S. Pedro”

“Sair à rua para o retrato de S. Pedro”: conseguir que os “entrevistados” saiam à rua para posar junto a qualquer espaço público de S. Pedro escolhido pelos próprios será o grande desafio colocado aos fotógrafos que voluntariamente se oferecem para captar esse momento único. O convite será lançado a fotógrafos amadores e  profissionais, sendo o momento integrado nas demais “homenagens”.
Esta etapa culmina com a exposição dos retratos, colocados em locais centrais de S. Pedro, o mais próximo possível dos “cenários” escolhidos pelos retratados.

Para financiar a exposição propõe-se a realização de uma campanha junto dos estabelecimentos comerciais da área de intervenção, segundo o mote “Apadrinhe o seu Ancião – Contribua para a sua Homenagem”. Cada estabelecimento poderá escolher o retratado a apadrinhar, constando no retrato o seu patrocínio.  O patrocínio pode ter dois valores, em relação directa com a dimensão do retrato a exibir:
  • “Large” – retrato de 100 x 150 cm: aprox. 40 euros.
  • “Medium” – retrato de 75 x 100 cm: aprox. 30 euros
O objectivo é reunir e exibir uma colecção de 24 a 40 retratos, amostra simbólica da diversidade dos habitantes de S. Pedro com mais de 65 anos.
Esta etapa do projecto conta já com o entusiasmo de três fotógrafos: Paulo Martins, Mariis Capela e Francisco Gomes.
 
2.3. Quarta Etapa: “Juntos fazemos História”

O projecto termina com a construção de um “diário de bordo” enquanto documento do processo criativo e sua doação simbólica ao Arquivo Histórico e eventual edição por iniciativa camarária.

A importância simbólica deste projecto “E agora, S. Pedro?” não seria possível sem essa inspiração primeira que foi a figura ilustre de Sintra, José Alfredo da Costa Azevedo, incansável dinamizador da Memória e Tradição que os muitos volumes de “Velharias de Sintra” testemunham. Será possível reunir, neste “diário de bordo”, notas introdutórias e de contextualização de historiadores, escritores, investigadores e amantes de Sintra como João Rodil, Eugénio Montoito, Luís Martins e Filomena Oliveira.