sábado, 22 de dezembro de 2012

Robert Southey em Sintra

  
Robert Southey (Bristol 12 de Agosto de 1774 - 21 de Março de 1843) foi um historiador, escritor prosador e poeta britânico da escola do romantismo e "Poeta laureado" e mais um dos rendidos às belezas de Sintra.
Era filho de Thomas Southey e de Margaret Hill, um negociante abastado . Robert trabalhou na loja do pai como entregador, E com o falecimento do pai o negócio passou para o  seu tio que cuidou da sua educação. Na adolescência foi destinado para a carreira eclesiástica, teve lições com um ministro protestante e depois ingressou no Colégio Corstor.
Aos 13 anos foi matriculado na Westminster School de onde foi expulso por editar num periódico satírico contra os dirigentes da escola. Mais tarde ingressou na Universidade de Oxford.
Foi levado para Lisboa por seu tio materno Herbert Hill, pastor anglicano, onde teve a oportunidade de planear uma História de Portugal. Em 1810 foi nomeado secretário no Erário da Irlanda,e, ao  retirar-se deste emprego foi residir em Keswick. Tinha uma biblioteca que somava 14.000 volumes.
Especializou-se em História de Portugal e do Brasil, provavelmente era possuidor da melhor colecção de livros espanhóis e documentos originais sobre Portugal e América do Sul em toda a Inglaterra.
De 1810 a 1819 lançou a "História do Brasil", em Londres, que foi a primeira publicação contendo a sua história geral e que abrange todo o período colonial até a chegada de D. João VI ao Brasil, em 1808(isto, sem nunca ter estado no Brasil).
Além da sua História do Brasil (1810), publicou muitas outras obras dentre elas destacam-se: Vida de Horatio Nelson,Vida de Wesley, Joana d'Arc (1796) Poesias (1797)Cartas de Espanha e de Portugal (1797) Palmerim de Inglaterra (1807) Cartas de Espriello (1807) Maldição de Keama (1811) Poemas para os Soberanos Aliados (1814)Rodrigo, o Último dos Godos (1814)Sir Thomas More, Colóquios de Estado e da Sociedade (1832)As Vidas dos Almirantes Britânicos (1839)
 De Sintra se enamorou e aprendeu português dizendo que a vila e serra eram boas demais para os portugueses, tendo por cá vivido algum tempo, sobretudo em 1800, quando escreve cartas sobre Portugal e Sintra, de que destacamos o excerto a seguir:
Mais um viajante em Sintra, ontem como hoje, sempre rendido, como ele escreveu:"Sintra é talvez mais bela do que sublime, mais grotesca do que bela, e todavia em minha vida nunca contemplei quadro algum que mais apto fosse a encher o espectador de prazer e admiração… Respirar o ar de Sintra é, por si só, um prazer inefável".
Para referências a Sintra nos seus textos e cartas, ver em The life and correspondence of Robert Southey, editado por seu filho, Rev. Charles Cuthbert Southey


Breve História de Galamares


Galamares, na freguesia de S.Martinho, em Sintra, é um local onde o rural e o bucólico se cruzam e ao mesmo tempo onde estórias da História ocorreram e que aqui nos propomos contar, sem preocupações sistemáticas .

Das páginas 149 a 151 da obra "CINTRA PINTURESCA-Memoria Descriptiva da Villa de Cintra, Collares e seus arredores" - 1838, do Visconde de Juromenha, consta uma "descripção da villa de Collares" de há 170 anos atrás. Nela faz-se referência a "Gallamares", supostamente vocábulo corrupto de "Alaga-Mares" por chegar antigamente a maré àquele sítio, inundando-se, na enchente, o vale por ela percorrido. O autor faz referência à perda de navegabilidade do rio Colares, tendo-se tornado o seu leito, no estio, "vadiavel em toda a parte" (percorrível a pé?). Dever-se-á, segundo o Visconde, a duas causas concorrentes: (i) o progressivo assoreamento da foz, antigamente "limpa e funda", por onde acediam as embarcações que demandavam o porto de Colares, (ii) e as retiradas de água da ribeira para a rega dos pomares. É ainda referido que, já no ano de 1154, no foral de Cintra, se designava este rio por "Galamar" e que os nomes de alguns sítios em redor do mesmo rio de Collares, designados Porto, Reconcavo, Terra Firme, Auguaria, etc. de alguma forma fundamentam "a conjectura tradiccional de o mar ter occupado estes campos e areaes, a que ainda chamão marinhas, que hoje se veem aproveitados em vinhas e pinhaes".

Pouco povoada, como os inquéritos mandados fazer em 1758 pelo Marquês de Pombal o deixam antever-pouco mais de 40 “vizinhos”, surge no século XIX associada à primeira viagem de balão que se realizou em Portugal, e que vem descrita na Gazeta de Lisboa de 21 de Março de 1819 :

Havia 24 para 25 anos (desde 24 de Agosto de 1794) que esta capital não gozava do magnífico espectáculo de uma viagem aerostática, que é sem dúvida um dos mais maravilhosos efeitos dos progressos das ciências nos últimos tempos, quando no dia 14 do corrente Março se viu renovado este esplêndido divertimento de um modo o mais brilhante que neste género se tem visto.

Tendo há tempos Mr. Robertson, bem conhecido na Europa por seus conhecimentos práticos de Física experimental, chegado de França com seu filho, mancebo de coisa de 20 anos, a esta capital, e tendo pedido e alcançado licença para fazer uma ascensão aerostática, aumentando com esta o número de muitas que tem feito em diversos países, designou executá-la a 28 de Fevereiro; mas não o permitindo o tempo chuvoso, ficou transferida para o dia de domingo 14 de Março, o qual amanheceu com todo o brilho que neste delicioso clima se goza em tempo de estio, e particularmente na Primavera.

Era o sitio destinado para esta operação a formosa Quinta da Excelentíssima Condessa de Anadia, a S. João dos Bem Casados, que S. Exa. generosamente se dignou prestar a Mr. Robertson para este fim, e cuja situação elevada oferecia um excelente ponto para a partida do aeronauta, desfrutando-se esta ao mesmo tempo de diversos lugares eminentes. Em uma área espaçosa desta Quinta se tinham destinado lugares de primeira e segunda ordem para um avultado número de subscritores que desejavam presencear de perto à operação de encher a máquina, para cujo fim estabeleceu no centro o hábil físico um aparelho pneumato-químico formado de 14 tonéis, de 8 dos quais só precisou extrair o gás, começando a trabalhar das nove e meia para as dez horas da manhã. Por volta da uma hora encheu o dito Professor um globozinho, que tinha as armas reais, e o levou à Excelentíssima Condessa de Anadia para S. Exa. se dignar de o soltar, e elevando-se ao ar, tomou a direcção do Noroeste, o que deu a conhecer aos espectadores qual deveria ser o rumo que seguiria o aeronauta, cujo balão grande, de 21 pés de diâmetro, já então estava cheio e pronto a partir. Para entreter porém mais os espectadores até à partida do seu balão, lançou Mr. Robertson mais alguns pequenos aeróstatos, tendo o último o feitio de um avultado peixe. Tocavam de vez em quando os músicos da Guarda real da Polícia, que se achavam no recinto, lindas sonatas, que animavam mais o vivo interesse que se divisava naquela conspícua assembleia.

Esperava o público que seria Mr. Robertson, pai, o que subiria aos ares, e tal fora sempre a geral expectação, quando seu filho, o mancebo Robertson, desejando segui-lo nesta carreira, testemunha da maior parte das ascensões aéreas de seu pai, e tendo já subido com ele aos ares em Viena, instou lhe concedesse datar deste dia, e em tão brilhante ajuntamento a época da sua primeira ascensão aerostática em que fosse ele só. Tendo o pai anuído aos seus rogos, e certo de que se achava capaz de bem desempenhar esta arriscada empresa, entrou na barquinha o mancebo Robertson pelas duas horas e um quarto, e elevando-se um pouco a máquina, ainda preza por algumas guias, girou em torno da assembleia que ocupava o recinto, espalhando por cima dos espectadores vários papéis de versos análogos ao espectáculo. Baixou depois disto, e marcando os grãos do termómetro e do barómetro que levava, e as horas do seu relógio, se elevou pelas duas horas e três quartos, e na altura de coisa de 15 braças, lançando abaixo a bandeira, e descobrindo-se, bradou três vezes Viva El Rei, ao que respondeu o imenso concurso dos circunstantes. Foi-se o globo entre vivas e aplausos elevando majestosamente com grande serenidade, e quase perpendicularmente por grande espaço, indo entretanto o aeronauta deitando, até já ir em grande altura, mãos cheias de papéis de várias poesias impressas para esse fim.

Um quarto de hora depois da partida, vendo o aeronauta debaixo de seus pés uma bela povoação (que era Benfica), abriu a válvula do balão para descer, e falando, apartado do chão a altura das casas, com o povo que ali se apinhara, espalhou alguns papéis, e aliviando de algum lastro a barquinha, bradando Viva El Rei, tornou a elevar-se a maior altura, calculada em três quartos de légua nesta segunda subida, na qual, muito mais alta que a primeira, deu o jovem físico grande prova de sua intrepidez e talento.

Vendo-se já quase iminente ao mar, abriu de novo o registo do balão para subir o gás, e foi descendo contrariado pelo vento, chegando a terra pelas 4 horas e meia, num campo lavrado perto do sitio de Galamares (meia légua ao poente de Sintra), onde lhe prestou o mais oportuno auxílio para subjugar o balão o R.P. Fr. Carlos da Conceição, dos Capuchinhos da Serra. Os habitantes do campo correram também a qual mais desvelado o havia de ajudar, e foi conduzido o intrépido aeronauta como em triunfo a Sintra entre clamores de júbilo, e não se farta de expressar quanto o seu coração se acha penhorado pelo obséquio que ali de todos recebeu.

Com o advento do romantismo, veio a moda da vilegiatura.

A capa da revista Colóquio/Letras nº131,de 1994,que aqui se reproduz,mostra um retrato da escritora Irene Lisboa tirado em Galamares, local onde veraneou nesses tempos, e datada de 1915(foto).
Irene Lisboa foi mais uma das figuras que elegeu esta terra como local de vilegiatura, terra que os médicos recomendavam como bons para doenças de pulmões. Nos anos 40 inclusive chegaram a funcionar sete pensões numa terra de pouco mais de 300 habitantes-á época.

Falar de Galamares nos últimos 50 anos é falar da esplanada do Alcino, as Caves de S.Martinho, inauguradas em 1949,e que durante décadas funcionou como pensão, restaurante e café. Muitos  veraneantes dos anos sessenta e setenta ,ali assistiram  ás tertúlias nocturnas de Agosto quando as famílias da capital vinham a banhos, e alugavam toldo ao mês na Praia das Maçãs, e se vestiam para ir á noite ao café, local de encontro social onde chegou a haver uma jukebox, se admiraram os shows de ilusionismo do Xaimix ,e se chegou a pagar para assistir aos jogos do Mundial de Inglaterra, em 66.

Galamares como terra de vilegiatura e de casas esparsas,nasceu como núcleo urbano mais vincado -se bem que irregular- já no início do século XX, a partir da expansão populacional motivada sobretudo pela fixação de famílias que de alguma forma trabalharam para o Visconde de Monserrate e que pela zona da Sanfanha, e depois mais junto á Estrada Nacional nº247 se estabeleceram.

Deve-se ao Visconde de Monserrate o Salão de Galamares, bem como a água cedida através de chafariz público desde 1905.Após a sua morte, e com a dispersão e venda do património e palácio nos anos 40,muito da primitiva propriedade foi desmembrado, tendo ficado como um dos principais proprietários o seu administrador, Guilherme Oram,que por seu turno foi vendendo e destacando parcelas, ue se estendiam da Ponte Redonda ao Pinhal das Cavalhadas, e onde, sobretudo a partir dos anos 40 surgiram casas burguesas de veraneio, muito procuradas para se apanharem os "ares " da serra, a conselho médico, resultantes de vendas efectuadas(um terreno nos anos 40 custava a módica quantia de 15 contos!).

Entre os veraneantes famosos contaram-se Barahona Fernandes, professor e percursor da psiquiatria em Portugal, reitor da Universidade de Lisboa entre 1974 e 1977;Alfredo Guisado, escritor,companheiro de Pessoa e Almada e director nos anos 30 do jornal República;José Gomes Ferreira, escritor,com poemas escritos nas Caves de S.Martinho, que se podem ler nomeadamente no seu livro Poeta Militante; Reinaldo dos Santos,médico eminente; João Medina, professor catedrático da Faculdade de Letras; o radialista Ferreira da Costa,que cobriu as guerras coloniais em África; Maria Eugénia Cunhal, irmã de Álvaro Cunhal,etc

José Gomes Ferreira foi um dos escritores  que ali passou algumas temporadas, tendo escrito alguns dos seus poemas nas Caves de S.Martinho-"o café do Alcino"-onde se passavam fins de tarde serenos e noites á conversa.

Evoquemo-lo num poema que bem poderia ter sido escrito na sua esplanada, extraído da colectânea Poeta Militante:

Entrei no café com um rio na algibeira

e pu-lo no chão

a vê-lo correr

da imaginação

A seguir,tirei do bolso do colete

nuvens e estrelas

e estendi um tapete

de flores

a concebê-las



Depois, encostado á mesa

tirei da boca um pássaro a cantar

e enfeitei com ele a Natureza

das árvores em torno

a cheirarem ao luar

que eu imagino



E agora aqui estou a ouvir

A melodia sem contorno

Deste acaso de existir

-onde só procuro a Beleza

para me iludir

dum destino



IX



"Giestas, silvas, muros, tojo

e este sussuro hermético de um bicho

a roer o tempo

nos olhos dos vivos e dos mortos

- relógios de cinzas.



Coaxar de sapos que respiram pelas estrelas

nesta complicação de palavras

com caveiras que pensam.

Poesia.



(A velha tília do Jardim da casa de Galamares... Ali, o Pitum e o Raul José, com risos de adolescência, sonharam instalar um Retiro de Chá ao ar livre, onde os clientes, a quem serviriam chávenas de água quente, mergulhariam as flores vivas da tília, colhidas dos ramos.)



Nos ramos da tília

Juntam-se em concílio de cristal incerto

os deuses de barbas mortas

escondidos na névoa

dos alçapões sagrados.



Nós também nuvens.

Deuses desabituados.



(Meditação debaixo da tília do Jardim.)



Recordar torna o mundo mais exacto

com réguas de fumo,

ângulos perfeitos de olhos nos astros

- e a inoncência daquele céu pardo

das manhãs inconcretas

que todos se lembram de ser azul

e não verde para lhe chamarmos oceano

ou folha de árvore.



A realidade é mais confusão

máquina-doida-de-repetir sombras inconcluídas,

bocas dependuradas nos ramos e nas corolas,

destinos de morder o vento,

narinas nas flores,

conluio de pássaros com o sol,

as plantas enganaram-se e deram incêndios em vez de rosas,

construção da Cidade da Morte com pele e cal,

ervas pisadas por espectros

- e este cheiro tão bom a sonho

que torna o mundo mais efémero e real.

 As aves nos fios telefónicos alimentam-se de palavras."

José Gomes Ferreira foi um representante do artista social e politicamente empenhado, nas suas reacções e revoltas face aos problemas e injustiças do mundo. Mas a sua poética acusa influências tão variadas quanto a do empenhamento neo-realista, o visionarismo surrealista ou o saudosismo, numa dialéctica constante entre a irrealidade e a realidade, entre as suas tendências individualistas e a necessidade de partilhar o sofrimento dos outros.

Outra presença frequenta era o escritor e ensaísta Mário Dionísio.No espólio de Mário Dionísio há fotografias e textos datados que falam do paraíso que era para ele Galamares: entre 1953 e 1957,quando  andava às voltas com a «A Paleta e Mundo», obra em fascículos, cujo primeiro volume acabou de ser publicado em 1956, e o segundo volume em 1962.Mário Dionísio tinha alugado uma casa «ao ano», como se dizia, a casinha então isolada do Sr. José da Quinta, que vivia nas traseiras, ao fundo de uma estrada escalavrada que ia da linha do eléctrico lá para cima, na curva onde se vendiam as belas «nozes douradas de Galamares»…
                                      Mário Dionísio em Galamares
 
Começou  por ficar na Pensão Mariana, o «ferro eléctrico», que era mais barata do que as «Caves de S. Martinho» mais conhecidas por «café do Sr. Alcino», onde foi em tempos a sede da Alagamares. Havia então também a Pensão Maria Duarte e a Pensão Moderna.

Os amigos  lá passavam férias ou os iam visitar: Ferreira de Castro,Alfredo Guisado e família,etc.

Existe em Galamares um cine-teatro datado do princípio do século, onde durante anos, mercê da generosidade do visconde de Monserrate se realizaram récitas musicais, teatro amador, cinema, etc, num espaço romântico de fim de século, com balcão e plateia, decorado com pinturas murais e baixos relevos.

Mercê da vontade dos moradores, organizados em turno do Grupo Desportivo de Galamares-GDCG- têm-se realizado festejos, num espaço(o possível) situado no antigo terreno dos Duartes, tendo nos últimos anos sido angariadas verbas para o restauro por conta da população do dito espaço,e tendo até ao presente sido gastos mais de cinquenta mil euros,e faltando ainda o restauro das pinturas e acabamentos vários.

O restauro deste espaço é importante. Trata-se do único espaço público de Galamares, ali tocou Viana da Mota em 1923,e se fez teatro nos anos 40 a 60.O desporto, mormente o ciclismo e atletismo teve igualmente algum destaque.

Em Galamares igualmente funcionou durante anos a Casa das Nozes,das nozes douradas,doce típico hoje quase desaparecido. Há que preservar tal tradição!Porque embora más para o colesterol, a memória também passa pelo estômago. E se Sintra tem as queijadas e travesseiros e Belas os fofos,Galamares tem as suas nozes. Quem pega na receita e a continua?

A partir dos anos 80 o fenómeno da casa de campo foi-se diluindo e muitos ou se fixaram de vez, bem como seus descendentes, ou venderam as casas, tornando a terra, hoje com 1300 habitantes, mais habitada durante todo o ano, com uma população herdeira dos antigos veraneantes ou dos antigos rendeiros e caseiros que por cá ficaram. Muitas figuras públicas moram hoje igualmente em Galamares: Luis Represas e Margarida Pinto Correia; Nuno da Câmara Pereira, Galopim de Carvalho, Cândida Almeida, Rui Vilar e Isabel Alçada, Jardim Gonçalves, etc.Hoje como ontem, á sombra da silhueta de Mil e Uma Noites de Monserrate se vai mantendo o Éden ao pé da Aldeia Grande. Que se mantenha por muitos anos!

Fernando Morais Gomes


Luísa Sigea e Sintra

                                                        
Luísa Sigea de Velasco ou Aloysia Sigea Toletana foi muito célebre no seu tempo, estando contudo associada a Sintra pelo poema do mesmo nome que em 1545 escreveu e dedicou à infanta D.Maria,meia irmã de D.João III, e que curiosamente foi dado a conhecer ao mundo em 1566 pelo embaixador de França em Lisboa, Jean Nicot,o tal de onde deriva o nome da nicotina.

Era de nacionalidade espanhola e nasceu na província de Toledo, provavelmente em Tarancón, em 1522, filha de Diogo Sigeu e  Francisca de Velasco. Diogo Sigeu era um homem culto e foi ele sem dúvida que começou a ensinar latim e grego a seus filhos.

Luísa deveria ser a mais nova de quatro irmãos, dois rapazes, Diogo e António e outra menina, Ângela, que foi companheira de Luísa na corte de Lisboa.

Diogo Sigeu participou na revolta dos “comuneros” de Castela dirigida por Juán Lopez de Padilla (1480 – 1521) e desempenhou funções ao serviço da esposa deste, Maria Pacheco. Em 24 de Abril de 1521, Juan de Padilla é derrotado, julgado e executado. Durante algum tempo, Maria Pacheco dirige a revolta, mas em Fevereiro de 1522 foge para Portugal, seguindo o percurso de Castelo Branco à Guarda, Viseu, Porto e Braga, onde foi protegida pelo Arcebispo .Maria Pacheco faleceu em 1531 e Diogo Sigeu acompanhou-a até 1530, data em que passou para o serviço da Casa de Bragança.

Foi assim para Vila Viçosa ensinar línguas aos filhos de D. Jaime, Teodósio, o mais velho e mais outros três. Depois da morte de D. Jaime em 1532, D. Teodósio mantê-lo-ia ao seu serviço até 1549. É nessa altura (início da década de 1530), que Diogo Sigeu chama para Portugal sua mulher e seus quatro filhos. Diogo, o mais velho, estudava já na Universidade de Alcalá e prosseguiu em Coimbra estudos de filosofia e teologia, recebendo depois Ordens Sacras, sendo mais tarde Conselheiro da Universidade de Coimbra.  António foi durante vários anos secretário de Gaspar Barreiros, o autor da Chorografia de alguns lugares…

Mas Diogo Sigeu deu atenção sobretudo à educação de suas duas filhas Luísa e Ângela.Luísa, sobretudo, mostrou uma enorme propensão para aprender línguas. Falava correntemente castelhano, francês e italiano e escrevia em latim, grego, hebraico, árabe e siríaco (caldeu).

Luísa Sigea nunca foi tímida a mostrar as suas habilidades. Em 1540 através de um amigo de seu pai enviou uma carta em latim ao Papa Paulo III, juntando o que mais tarde ela ‘chamou “quosdam ingenioli mei flosculos “ - algumas florinhas do seu jovem talento.

Mas a sua vida mudou no início de 1542, quando seu pai foi convidado ou talvez “obrigado” a enviar as suas duas filhas para o Palácio da Rainha D. Catarina, como “moças de câmara”. Pouco depois, Ângela e Luísa juntaram-se assim às cultas senhoras que serviam a Infanta D. Maria, meia-irmã do Rei, nomeadamente Paula Vicente, filha de Gil Vicente, o dramaturgo, e Joana Vaz. Ângela e Paula Vicente dedicavam-se mais à música, Joana Vaz e Luísa, às letras, eram as “damas latinas”.

Em 1545, Filipe II de Espanha ficou viúvo e pôs-se a hipótese de a Infanta  casar com seu tio. O projecto gorou-se e a “sempre-noiva” ficou assim mesmo, noiva. Luísa Sigea escreve então o poema Sintra dedicado à Infanta que, mais tarde, em 1566, seria publicado em Paris pelo antigo embaixador de França em Lisboa, Jean Nicot (que deu o nome à nicotina, por ter levado o tabaco de Lisboa para Paris).

Jorge Coelho e Gaspar Barreiros escreveram epigramas elogiosos ao poema. Está traduzido no livro do Conde de Sabugosa.

Em 1546, Luísa Sigea envia ao Papa Paulo III, uma carta em cinco línguas (latim, grego, hebraico, árabe e siríaco), acompanhada da transcrição do seu poema. Mais ou menos na mesma data, Joana Vaz escreveu também ao Papa uma carta nas primeiras três línguas. O Papa respondeu a uma e outra, a Luisa por carta de 6 de Janeiro de 1547 (também nas mesmas cinco línguas).

Depois de casada, Luísa ficou ainda algum tempo na Corte, que abandonou de vez em 1555. Mas não se sentiu feliz em Burgos. Mais tarde, em 1558, Francisco de Cuevas  e Luísa Sigea entram em Valladolid ao serviço da Rainha da Hungria, D. Maria, ele como secretário, ela como “dama latina”. Durou pouco esta situação. Em 18 de Outubro de 1558, a Rainha da Hungria falece de repente. Em 1559 escreve a Filipe II, pedindo-lhe um emprego para seu marido. Não teve resposta.

No início de 1560, Luisa Sigea dirige-se a Toledo, onde Filipe II espera a chegada da nova Rainha de Espanha, Isabelle de Valois. Solicita ao Embaixador de França um empenho junto da nova Rainha. Isabelle de Valois recebeu-a mas nada decidiu. Desanimada, regressou a Bruges, onde veio a falecer em 13 de Outubro de 1560.

As peripécias da sua vida revelam uma pessoa megalómana, provida de um ego monstruoso e eternamente insatisfeita. Deveria ser extremamente bonita e agradável no trato, vistos os “piropos” que recebe de inúmeros contactos masculinos da sua época. Por outro lado, os seus biógrafos, mesmo os da actualidade, têm sido particularmente infelizes. Odette Sauvage não conhecia ou não utilizou os dados de Ismael Garcia Ramila, de 1958, “Nuevas e interesantes noticias, basadas en fe documental, sobre la vida y descendencia familiar burgalesa de la famosa humanista, Luisa de Sigea, la “Minerva” de los renacentistas”, Boletín de la Institución Fernán González, XXXVIII, 144 (1958), pp. 309-321; XXXVIII, 145 (1959), pp. 465-492; XXXVIII, 147 (1959), pp. 565-593. E nem uma nem outro utilizaram uma tese de doutoramento sepultada em 1955 na Universidade Complutense de Madrid, da autoria de Sira Lucía Garrido y Marcos, intitulada Luisa Sigea Toledana, 658 fls. Cota T-7298, referida por Nievas Baranda Leturio, que indica dados (sobretudo financeiros) que não analisa, deixando a outros o trabalho de o fazer.

Como diz o Prof. Américo da Costa Ramalho, Luisa Sigea teria caído quase no esquecimento, se não fosse a malandrice de um francês, Nicholas Chorier, que em 1680, publicou uma obra pornográfica com o título Aloysiæ Sigeæ Toletanæ satyra sotadica de arcanis amoris et veneris: Aloysia hipsanice scripsit: latinitate donauit J. Meursius. A obra faz uma certa apologia da homosexualidade feminina, acentuando o agrado que nisso têm os homens. Foi depois traduzida para francês e para muitas outras línguas, com os mais variados títulos, sendo mais conhecida sobretudo no mercado inglês, por The Dialogues of Luisa Sigea. Trata-se de uma grande injustiça feita a Luísa Sigea, que certamente,revoltada, já deu muitas voltas no túmulo, de indignada.

Sintra-Versão em português

Junto às praias do ocidente, onde o sol, ao aproximar-se a noite, já demanda o oceano, e levado no seu carro ebúrneo, quase toca o imenso mar, com os seus cavalos cansados pela longa carreira, fica um lugar, onde um vale ameno, por entre rochedos que se elevam até aos céus, se recurva em graciosos outeiros, por entre os quais se sente o murmurar da água.

 Circunda o oceano a imensa mole, e três píncaros elevadíssimos guindam-se até aos astros, a ponto de, quando densas nuvens os não coroam, chegarmos a acreditar que o céu assenta sobre tais colunas.

 Vivem os Faunos nestas solidões, as quais servem de abrigo às feras, vindo frequentemente os caçadores armar laços às mães e aos filhos. Na parte inferior, os carvalhos apinham-se no meio de densa folhagem, fornecendo a sombra amplas casas para Silvano e para os Satyros. Aqui se encontram em grande número, o choupo, a aveleira, a faia, a pereira, a cerejeira, a ameixieira, os castanheiros, e inúmeras outras árvores que dão alimento aos felizes mortais, tudo dádiva dos Deuses do céu. À direita, a flava Ceres espontaneamente ensinou os mortais a lavrar os campos, a semeá-los, e a formar as searas. Do lado esquerdo para a parte do norte, a cada passo oferece Pan amplas pastagens para os rebanhos. Às faldas da serra ostentam-se viçosos limoeiros, tão belos quanto os costuma produzir o jardim das Hespérides. Aqui se encontram as folhas do louro, outrora prémio dos vencedores, com as quais ainda hoje os poetas costumam cingir as suas frontes, e cresce abundantemente a murta, tão querida de Vénus; tudo, enfim, nos encanta e perfuma o ambiente com a sua fragrância e com os seus frutos. Ressoam os bosques com os gorjeios do rouxinol, geme a rola, e a pomba, e fazem ali seus ninhos todas as aves que voam pelo espaço, no meio de um chilrear ensurdecedor.

 Nos prados florescem as odoríferas rosas, os lírios, as violetas, o fragrante tomilho, a hortelã, o alecrim, o narciso, o poejo bravo, a videira sagrada, e muitas outras flores, ervas e arbustos que a terra fertilíssima produz, nos vales, e nas selvas, com que a cada passo ornam as suas frontes as Dryades, os Faunos, as Ninfas, e os Deuses cornígeros. Corre a água cristalina com brando murmúrio pelo meio do vale sombrio, por entre enormes rochedos, e nos pequenos lagos que ela forma, costumam vir banhar-se as formosas Ninfas, no romper da aurora, ou mesmo ainda quando a noite tem o seu manto estendido pela serra. Sobranceiro a um destes lagos fica soberbo palácio, de onde a régia prole, na candura da inocência, desfruta o sublime panorama que lhe oferece a espessa mata.

 Enquanto eu daqui espraiava os olhos por todo o horizonte, admirando tanto mimo, tantas delícias da natureza, Céfalo tinha deixado a Aurora, e ela ruborizada começou a iluminar as terras afugentando a noite.

 Então repentinamente, de um dos lagos, levanta-se uma Ninfa com um corpo e uma voz divina, olha, e assim se me dirige, espontaneamente com estas palavras amigas:

 ‘Salve! donzela, que tão grata és aos Deuses. Em que pensas, ó Sigeia? Habitando nestas altas mansões, desejas conhecer os destinos da tua querida princesa?"

 Então eu:

 "Se os Deuses despachassem favoravelmente os meus desejos, levantaria até aos astros Senhora tão excelsa. Ó Ninfa, guarda deste recinto, que semelhas urna deusa com essa tua formosa madeixa, nesse teu rosto, nos olhos, no seio e mais que tudo no teu majestoso porte, tu que reúnes as águas no vítreo pego, e tens poder para revelar os destinos dos Países, diz-me para que reinos e para que tálamos está destinada a princesa real’.

 Enquanto assim falo, ela alegre solta dos róseos lábios as seguintes palavras:

 “Ó Donzela, ouve a resposta ao que me perguntas e não duvides: O Pai Neptuno conduziu-me há pouco até aos remontados paços onde Júpiter costuma reunir os deuses. Lá os vi todos libando o néctar precioso e a ambrósia: terminado o banquete, os Deuses imploram para a princesa dons régios, que a façam avantajar-se em poder a quantas excede já em merecimentos. Achava-se presente a douta Minerva, Apolo inventor do canto, e também Calíope, todos estimadíssimos de Júpiter, e também estimados da princesa, cultora exímia das suas artes. Agradecidos portanto eles pedem dádivas extraordinárias.

 Júpiter com o sorriso com que ilumina os astros, responde assim á súplica unânime dos Deuses:

 — Alegrai-vos, ó Deuses! Sabei que é minha vontade que fiquem inabaláveis os destinos da augusta e poderosa princesa. Não desespere. embora veja que outras princesas a vão precedendo no trono: a seu tempo os destinos dela assumirão o seu lugar. As grandes coisas só se alcançam por meio de grandes trabalhos: nem o régio Olimpo detém os Deuses inactivos; por toda a parte são vistos os esposos que outras hão-de tomar, porém aquele que os Fados lhe destinam a ela, só o sabem as mentes celestes. Depois, feliz, quando casar, terá o império do mundo; e um e ouro hemisfério pacificados, curvar-se-ão diante da sua Senhora.

 Vai pois, e conta-lhe com discrição o que te acabámos de vaticinar, para que ela passe os dias tranquilos. Nem fiques com cuidados, ou temas relatar-lhe os destinos: todos os teus desejos se irão gradualmente realizando. "

 - "Todavia, diz-me ó Ninfa, encarecidamente to peço, o tempo do presságio».

 «Perguntas bem; é necessário conhecer também os tempos; porque o Pai omnipotente, levantada a mesa, os marcou nos deuses. Antes que o sol da primavera se volva por sobre um e outro pólo, muitas vezes de Câncer para Capricórnio, sucederão todas as coisas que profetizei.

 A ilustre princesa, então, irá súplice diante dos altares oferecer os seus votos, juntamente com o incenso”.

 — Assim falara, e a Deusa, de novo salta para as líquidas aguas e veloz na carreira, esconde-se no pego.

 E eu que de tudo costumava duvidar em atenção à Princesa, voltei depois segura do vaticínio.

 Creio que Mercúrio foi mandado do Olimpo sob a forma de uma Ninfa, para me predizer o futuro da minha Senhora.

 Agora, suplicante, levanto para os céus as minhas mãos por tão feliz acontecimento, porque, em verdade, não me falece a crença.

 E quando eu vir já tudo completamente realizado na Princesa, espero então obter um lugar entre os habitantes do céu.



 SYNTRA-versão original em latim

Est locus, occiduas ubi sol æstivus ad oras
Inclinat radios, nocte premente diem:
Oceanumque petit, curruque invectus eburno,
Iam cursu lassos æquore tingit equos.
Vallis ibi inclusa, scopulis ad sidera ductis,
Deflectit clivos: murmurat intus aqua.
Obiicit Oceano molem, ternæque minantur
Excelsæ rupes tangere tecta poli.
Et nisi condensi cingant fastigia nimbi,
His cælum credas sistere verticibus.
Rupibus his Fauni, sunt hic quoque lustra ferarum,
Venator matres figat ubi et catulos.
Inferne viridi densantur robora fronde:
Silvano et Satyris efficit umbra domos.
Populus hic, corylique decus, fagusque pirusque,
Et cerasus, prunus, castaneaeque nuces,
Et plantæ innumeræ mortalibus esca beatis,
Quæ sunt divorum munera cælicolum.
Flava Ceres dextra mortales vertere terram,
Et serere, et messes condere, sponte docet.
Pan læva, Arctoum mundus qua surgit ad axem,
Pascere dat passim gramina læta gregi.
Citrea mala rubent, vallis qua tendit ad imum,
Qualia fert rutilans hortulus Hesperidum:
Et lauri frondes, victorum premia quondam,
Quæque poetarum texere serta solent:
Et myrtus Veneri sacra crispatur in umbra:
 Cuncta placent fructu, floribus ас redolent.
 Hic philomela canit, tirtur gemit atque columba:
 Nidificant volucres, quotquot ad astra volant.
Silva avium cantu resonat, florentia subtus
Prata rosas pariunt, liliaque et violas,
Fragrantemque thymon, mentam, roremque marinum,
Narcyssum et neptam, basilicumque sacrum:
Atque alios flores, ramos herbasque virentes,
Terra creat pinguis vallibus ac nemore-.
Queis passim Dryades capiti cinxere corollas,
 Et Fauni et Nymphæ cornigerique Dei.
Ast ubi præcipitans leni fluit unda susurro
Per vallem umbrosam rupibus aëriis:
Stagna replet, pulchræ mersant ubi corpora Nymphæ,
Aurora aut splendet, seu tegit umbra polum:
Regia celsa lacu supereminet, unde comantem
Prospectat silvam candida virginitas.
 Hinc ego prospiciens, oculis dum singula lustro,
 Naturæ admirans munera, delicias,
Liquerat Auroram Cephalus, vultuque rubenti
Illa aperit terras, pandit et illa polum:
Emersit stagnis subito pulcherrima Nympha
Tunc forma referens, corpore, voce deam.
Suspicit, alloquiturque ultro me hac voce sedentem
Vocibus his: “Salve grata puella Deis.
Quid tecum, SYGAEA, putas? Tu principis almæ
Arcibus his spectans noscere fata cupis?”
Tunc ego: “Si superi firmarent numine quantum
Exoptem, dominant tollere ad astra velim,
О quæ cæsarie, vultuque, oculisque, sinuque,
Et certe incessu diva videre mihi!
Nympha loci custos, vitreo quæ gurgite lymphas
Concipis, et Divum pandere fata potes:
 Tu mihi fatorum seriem, quæ regia virgo
 Regna manet, resera, quosve manet thalamos?"
 Illa libens roseo ( dum sic loquor) intonat ore:
 “Quod, virgo, rogitas, accipe, nec dubita.
Neptunus genitor nuper me ad summa tonantis
 Atria perduxit concelebrata Deis.
Constiterant cuncti vescentes nectare, пес non
Ambrosia: at postquam mensa remota fuit,
Digna petunt divi regali in principe dona,
Imperio ut superet, quas superat meritis.
Docta Minerva aderat, cantusque inventor Apollo,
Nec non Calliope, pignora chara lovis.
Quos coluit virgo, quorumque exercuit artes,
Illi gratantes munera pulchra petunt.
luppiter adridens vultu, quo sidera lustrat,
Respondet divis, qui petiere simul:
“Gaudete, o Superi: perstare immota potentis
Principis augustæ maxima fata volo.
Nec, licet adspiciat quasdam nunc carpere regna,
Desperet: capient mox sua fata locum.
Non nisi per magnos vincuntur magna labores:
Nec tulit ignavos regia celsa Deos.
Quosque aliæ sponsos captent, visuntur ubique:
Quem sibi fata parant, non nisi summa tenet.
Нæс reget Imperium fœlix, quum nupserit, orbis:
Pacatus dominæ cedet uterque polus.
Vade ergo, et timidæ referas, quæ diximus, oro
Fatidico, ut lætos exigat illa dies.
Nec sis sollicita, aut metuas prædicere fata:
Succedent votis ordine cuncta tuis.”
“Augurii, .repeto, tempus mihi, Nympha, recense.”
“Recte, inquit, rogitas: tempora nosse opus est.
Nam Pater omnipotens, epulis de more solutis,
Fatorum superis tempora certa dedit.
Ante polum quam sol circum volvatur utrumque,
Sæpius a Cancro versus ad Ægoceron,
Quæ cecini, venient: voti rea maxima princeps
Ante aram supplex tunc pia thura feret.
Dixerat, et liquidas resilit Dea rursus in undas,
 Præcipiti et saltu gurgite mersa latet.
 Ast ego, quæ Infantis causa dubitare solebam
 Antea, tunc rediens omine certa fui.
Mercurium, credo, Nymphæ sub imagine Olympo
Demissum, ut Dominæ sic mihi fata canat.
Nunc supplex tendo iunctas ad sidera palmas
Pro tali augurio; nec mihi cassa fides.
Нæс ego quum cernam compleri in principe vates,
Spero cælicolas inter habere locum.